Era uma vez a Rua General Paranhos

Como era a rua que deu lugar à Borges de Medeiros, grande e famosa avenida do centro de Porto Alegre? Hoje poucos sabem, pois esta estreita rua, também conhecida por ter vários trechos chamados de beco, desapareceu há quase cem anos, precisamente por volta de 1926. Já naquela época começaram as demolições de suas casas, e a enorme escavação que ligaria a margem norte à margem sul da região central de Porto Alegre, facilitando o trânsito de bondes e depois de carros e ônibus.

A antiga Rua General Paranhos percorria transversalmente o espigão do centro histórico da cidade, e também era conhecida como “Rua do Poço” na planta de 1839. Segundo Sérgio da Costa Franco (1988), era

[…] estreito beco que subia desde a Rua General Andrade Neves até a Rua Duque de Caxias e dali descia em outra fortíssima ladeira até a Rua Coronel Genuíno. O nome de General Paranhos datava de uma resolução da Câmara Municipal em 30/10/1871, mas a população porto-alegrense, com seu aferrado tradicionalismo, ainda aludia àquela via pública como o ‘Beco do Poço’ […]1

Já Antônio Álvares Coruja (1881) fala da General Paranhos como uma rua que comportava becos de diferentes nomes em seus diversos segmentos:

O Beco do Freitas, a Travessa do Poço, e Beco do Meireles. Eis mais uma rua com três nomes
diferentes, e que por isso se pode também descrever em 3 secções differentes.
A 1ª secção, a mais antiga, era da rua da Ponte à da Igreja, onde raríssimas eram as casas e de fraca aparência, em uma das quais morava o Pedro Penacheiro que saudava os transeuntes com as barreteadas de Meu Sinhozinho [sic]. A casa de sobrado da esquina da rua da Ponte com frente ao norte e poente, edificada sobre um charco pelo padre Inácio Soares Viana, 1º vigário do Rosário, por falta de bons alicerces teve de ceder ao peso do madeiramento, pelo que foi de novo reedificada. Esta 1ª secção tinha o nome de Travessa do Poço.
A 2ª secção, da rua da Ponte à rua Nova, só tinha uma casa velha em frente a do padre Inácio, e como Manoel José de Freitas Travassos aí fizesse edificar uma carreira de casas ao lado dos números ímpares, ficou-se chamando Beco do Freitas.
A 3ª secção, denominada Beco do Meireles, só veio mais tarde depois que o tenente coronel Meireles levantou as suas casinhas da rua da Igreja para a do Arvoredo. Hoje o nome do general Paranhos substitui com sua placa todos esses nomes de princípio a fim. 2

Nota-se que o cronista da cidade descreve uma via de ocupação esparsa, e onde se fazia construir “casinhas”, tendo os proprietários dado nome aos trechos da rua onde as erguiam. Mais uma vez, o espaço de um beco é associado à ocupação pelas camadas mais pobres da população, problema que se agravaria com o crescimento da cidade ao longo do século XIX e início do XX.

Achylles Porto Alegre (1940) traz a mesma sequência de nomes para cada trecho da antiga rua: “General Paranhos: da rua Andrade Neves á do Riachuelo chamou-se – becco do Freitas. Dahi á Duque de Caxias, becco do Poço ou da Cacimba , e dahi para baixo – becco do Meirelles ”1.

O nome “Rua do Poço”, que aparece nas plantas de 1839 e 1868 para toda a extensão do beco, ou “Travessa do Poço”, a que se refere Coruja (1983 [1881]), tem sua origem no poço ou fonte aberta pela municipalidade na altura do cruzamento com a atual Rua Jerônimo Coelho. De acordo com Coruja (1881),

A rua da Ponte [atual Rua Riachuelo], assim se chamou por causa de uns paus estendidos ou atravessados em ar de pinguela dobrada, que servia de ponte, mais ou menos pelas alturas da travessa do Poço, e por baixo da qual (ponte) passavam as águas que desciam como nativas do antigo poço ou fonte que deu nome à rua, depois denominada de S. Jerônimo, quando presidiu a província Jerônimo Francisco Coelho.
Essa rua do Poço, que alguns também chamavam rua da Cacimba, e que melhor se chamaria rua da Fonte, tinha uma fonte preparada e coberta de madeira […].
Para essa fonte ia todos os dias uma sentinela da guarda do palácio para impedir que os rapazes da escola do Amansa matassem o solitário cágado que aí vivia; e que afinal, retirada a sentinela, morreu a pedradas.
Hoje nem sentinela, nem fonte, nem cágado. Há apenas o locus ubi Troya fuit.1

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Fig. 1: “Beco do Poço”, aquarela de Francis Pelichek. Acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli. Nota-se o sobrado de esquina com três andares, e a fileira de casinhas características coloniais.

Esta explicação para a origem do nome do trecho também é dada por Achylles Porto Alegre (1940):

 Ahi pelas proximidades da rua ainda hoje chamada becco do Poço, havia uma fonte cuja guarda estava confiada ás sentinella[s] do palacio, afim de zelarem pela conservação da mesma e do kágado, que, como era de costume, usava-se pôr para limpeza da agua. Afinal, relaxada a pratica, o inoffensivo bicho foi morto a pedradas pelos discipulos do Amansa-Burros, que aproveitou o ensejo para solene aula de moral.2

Contudo, Franco (1983), em suas “Notas ao Capítulo I”, de Coruja (1983 [1881]), esclarece que

Rua da Ponte é a atual Riachuelo […]. A ponte ou pinguela que lhe deu o nome primitivo situava-se, a julgar pelo texto, no cruzamento com a atual avenida Borges de Medeiros, que veio a ser rasgada naquele trecho mediante o alargamento da rua General Paranhos, íngreme travessa que galgava a elevação de terreno até a Rua Duque de Caxias, e que foi conhecida como Travessa do Poço [grifo da pesquisadora]. Também a deduzir pelo texto, o poço ou fonte pública em questão ficaria aproximadamente no cruzamento da travessa do Poço com a atual rua Jerônimo Coelho, que se chamou outrora Nova do Poço e São Jerônimo, sucessivamente.1

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Fig. 2: Fotografia da demolição da “Travessa” General Paranhos na revista “A Mascara”, de 06/02/1925. A fileira de edificações à esquerda parecer se de casas térreas, possivelmente de aluguel.

Pode-se então dizer que a ponte ficava na altura do cruzamento do beco do Poço (atual Avenida Borges de Medeiros) com a Rua da Ponte (atual Rua Riachuelo), e o poço ou fonte ficava na altura da Rua Nova do Poço (atual Rua Jerônimo Coelho).

Os cronistas da cidade associam diversos personagens populares ao Beco do Poço. Coruja (1881), por exemplo, cita habitantes populares do Beco do Poço das primeiras décadas do século XIX:

Para se livrar de mais encontros tomou o soturno beco do Poço, onde teve ainda de corresponder aos humilíssimos cumprimentos do Barbulo Robalo ou Pedro Penacheiro que com a sua calça larga, gibão comprido, barrete, e barbas de quichequiche, tirava o barrete até o chão, chamando-o de ‘Meu Sinhozinho’.2

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Fig. 3: Fotografia da demolição de outro trecho da Rua General Paranhos. Década de 1920. Porto Alegre. Biografia duma cidade, 1941

Por sua vez, Achylles Porto Alegre (1940) é pródigo em enumerar personagens e suas atividades quotidianas no lugar:

Havia ainda o Eiras, barbeiro-esfola-queixos, cirurgião, dentista. Fazia sangrias, applicava bichas [sanguessugas, como descrito no ‘vidro de boca larga’?], ventosas e, aos domingos, ia caçar perdizes na Tristeza. Sua barbearia ficava na rua da Ponte, a actual Riachuelo, no pavimento terreo do sobrado sito á esquina da rua General Paranhos.3

E acrescenta mais adiante, descrevendo com maior detalhe a barbearia: “Era uma porta larga e toda a casa constava apenas de uma sala exigua e de um quarto microscopico, sem luz directa, sob as escadas do pavimento superior”4. Porto Alegre (1940) também assinala um personagem proeminente associado ao beco: “Na esquina era a venda do João dos Santos, – trunfo na maçonaria, onde chegou ao gráo 33, e na politica, em que attingiu á poderosa posição de – inspector de quarteirão.”5

Todavia, já no final do século XIX, são personagens marginalizados que se encontram associados à antiga General Paranhos/Beco do Poço. Pesavento (2008), dedica um capítulo de sua obra “Os Sete Pecados da Capital” ao “Pássaro Negro do Beco do Poço”

[…] foi neste ano de 1890 que chegara à cidade de Porto Alegre uma certa Anna Fausta Marçal, vinda de Camaquã, do interior do estado, alugando um sobrado no nº 42 do Beco do Poço, na segunda quadra e à esquerda de quem subia a Rua da Ponte para a Rua da Igreja. Neste local, a crioula Fausta instalou um prostíbulo ou bordel, tratado também no linguajar da época de bodega, espelunca, alcouce, lupanar, e que recebeu o poético nome de A Flor da Mocidade. Poético e sugestivo, pois era o tal bordel frequentado não só pelos subalternos da urbe como, ao que se dizia, pela fina flor da sociedade porto-alegrense… 6

Mais uma vez, o beco é lugar de associações insólitas, encontros de personagens que, conforme a autora, pertenciam a camadas muito diferentes da população porto-alegrense da época. A historiadora ainda se vale das cores vívidas da imprensa do fim do século XIX para dar uma idéia do ambiente do Beco do Poço:

Na quadra do referido beco, entre as ruas general Andrade Neves e Riachuelo, existem duas bodegas que acham-se seguidamente cheias de vadios e vadias que, na falta de qualquer ocupação proveitosa, passam o dia e até alta noite a fazer algazarra, da qual sobressaem de quando em vez palavras muito pouco admissíveis sob o ponto da moralidade.

Mulheres de má nota, algumas das quais já tem o nome registrado no livro da cadeia, soldados, marinheiros de navios mercantes e paisanos de ínfima classe, levam à porfia, a depravarem-se mais ainda e a prejudicar o transito publico pois ao ponto a que acha-se transformado aquele beco, é muitas vezes preferível à uma pessoa decente evitar passar por ali à sujeitar se [sic] a levar esbarradas dos ébrios imundos que por ali vagam.

Ainda na segunda-feira ultima duas crioulas, sem casaco e sentadas à beira da calçada, ‘divertiam-se’ a proferir obscenidades dirigidas à outra postada junto à porta de uma casa do lado oposto e que, por turno, respondia-lhes no mesmo tom.7 

As referências a distúrbios, contravenção e grupos marginalizados da população é frequente tanto nos cronistas como na imprensa, o que vale até para o fim da década de 1920, quando o Beco do Poço foi aberto para dar lugar à moderna Avenida Borges de Medeiros.

Mazeron (1949), por sua vez, relata que

Para chegar à Cidade [centro histórico] […] Alguns [moradores da Cidade Baixa] subiam o ‘Beco do Meireles’, que ficava paralelo à rua acima citada [Marechal Floriano], onde hoje existe a Avenida Borges de Medeiros, porém, não era grande o trânsito, porque arriscavam-se a ficar ‘mal vistos’ e as famílias passavam de cara virada, mesmo que fosse pelas esquinas.8

E acrescenta, celebrando a abertura da grande avenida no lugar do antigo beco:

Um porto-alegrense que esteja há muitos anos ausente da sua terra, no dia em que cá voltar, ficará surpreendido com a transfor[m]ação, pois em lugar do ‘Beco do Meireles’, vai encontrar a linda avenida Borges de Medeiros com seus magestosos edificios, que substituíram as velhas casinhas de outros tempos.9

Novamente, faz-se referência à presença de “casinhas” no beco, o que indica sua ocupação pelas camadas mais pobres da população. Tendo em vista a estigmatização e exclusão da população negra durante o período, a referência feita por Achylles Porto Alegre (1940) à presença dos cultos e festejos afro-brasileiros no Beco do Poço parece reafirmar essa realidade:

Havia pontos da cidade onde, aos domingos, o ‘batuque’ era infallivel. O becco do Poço, o do Jacques e a rua da Floresta eram sitios de eleição para o ‘batuque’. Nos dias de ‘folia’, já de longe se ouviam a melopéa monotona do canto africano e o som cavo de seu originalissimo tambôr. Nessas occasiões a aguardente corria copiosamente á roda, mas como o africano é de uma resistencia assombrosa para toda a especie de alcool, nunca se davam casos escandalosos de embriaguez.

De fato, o Beco do Poço, desde então marginalizado, no início do século XX havia se tornado um foco de criminalidade. Conforme Franco (1988), “unificados os três nomes sob a denominação comum de Rua Gen. Paranhos, essa via pública mortalmente prejudicada pela topografia nunca adquiriu respeitabilidade. E, nos últimos tempos de sua vida, se transformara em foco de crimes e prostituição”. A crônica policial da época é pródiga em menções ao beco do Poço, tanto que até manifesta sua surpresa quando passa-se um tempo sem ocorrências policiais:

Extranhavamos a quietude em que mergulhára, há varias semanas, o celebre becco do Poço, ponto predilecto da capadoçagem da cidade. Ha muito que o nome do famigerado beco desertára das chronicas dos jornaes, sem que facto algum explicasse a origem de tal ‘pacatização’: O policiamento e o movimento, os mesmos; as mesmas tascas e casas de libertinagem abertas, com a frequencia de sempre.12

Pode-se dizer, pois, que tanto as sociabilidades marginais e os conflitos policiais quanto a topografia dessa via pública (fig. 4) levaram a Intendência a encomendar o plano e colocar em prática as obras que iriam fazer da antiga General Paranhos uma via de conexão entre o porto e a margem sul da península, otimizando o sistema de transportes públicos. Segundo Franco (1988),

Esses trabalhos chegaram a ser iniciados pelo Intendente José Montaury. Mas foi, decididamente, o seu sucessor, Otávio Rocha, o pai da atual Av. Borges de Medeiros. Segundo se vê de seu relatório de 1925, ela figurava entre as metas mais importantes de sua administração: ‘Ao assumir o cargo, encontrei já iniciado esse melhoramento, mas o alargamento estava projetado apenas entre as ruas 15 de Novembro (atual José Montaury) e Coronel Genuíno. Julguei que era uma obra apenas de higiene e de embelezamento, e não uma obra de viação. Com a largura de 13 metros, sem ligação com o Porto, em nada viria a melhorar o tráfego de veículos e muito menos concorrer para descongestionar a circulação dos bondes’. […] ‘As rampas de acesso à rua Duque de Caxias, que atualmente têm 9% e 12%, ficarão reduzidas, respectivamente, de 1% e 5%, para o que se vai fazer o rebaixamento de 13 metros no ponto culminante. Aí será construído um viaduto de cimento armado, em arco abatido, por onde se fará a passagem da rua Duque de Caxias. […] É uma obra de viação de grande relevo, por que vai encurtar o trajeto para todas as linhas de comunicação dos arrabaldes Menino Deus, Glória, Teresópolis e Partenon.’13

Monteiro (1995) também traz a importância da ligação entre a encosta norte e sul da península como fator determinante para a execução desta grande obra:

Segundo novos padrões estéticos e higiênicos da elite dirigente, estas construções constituíam uma ameaça à saúde pública e não estavam a altura da capital de um dos mais importantes estados do país que se modernizava. Além disso, através da correção do seu arco, pelo escavamento de suas rampas e construção de um viaduto sob a rua Duque de Caxias, possibilitaria encurtar o trajeto das linhas de bonde e a comunicação com os arrabaldes do Menino Deus, Glória, Teresópolis e Partenon.14

É possível encontrar na imprensa da época frequentes menções à obra de alargamento e escavação da antiga General Paranhos, referindo também as desapropriações de seus imóveis feitas pela Intendência:

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Fig. 4: “Perfil Longitudinal da Rua General Paranhos”, revista “A Mascara”, 06/02/1925

A abertura da avenida Borges de Medeiros – A municipalidade continua o desaterro da rua General Paranhos, para a construcção da [sic] viaducto na rua Duque de Caixas e que se destinará a abertura da avenida Borges de Medeiros. Os trabalhadores aproximam-se dos predios da rua Duque de Caxias.
A secção do desaterro foi modificada, por se temer que comprometta a estabilidade do predio da exma. senhora d. Generosa de Azevedo. Por esse motivo está se procedendo, agora, ao escoamento dos massiços de terra.“A abertura da avenida Borges de Medeiros – A municipalidade continua o desaterro da rua General Paranhos, para a construcção da [sic] viaducto na rua Duque de Caixas e que se destinará a abertura da avenida Borges de Medeiros. Os trabalhadores aproximam-se dos predios da rua Duque de Caxias.
Ao mesmo tempo, o dr. Fernando Martins, chefe das Obras Novas, está estudando os projectos dos drs. Duilio Bernardi e Manoel Itaquy, para, adoptado um delles, proceder-se-á construcção da muralha ou dos passeios duplos, conforme fôr adoptado em outros projecto.
Para abertura da Avenida Borges de Medeiros foram comprados até ante-hontem os seguintes predios:
Coronel Genuino, 42, por 14:00$;
General Paranhos 70, por 15:000$;
Duque de Caxias, 238 e General Paranhos, 32, por 48:500$;
rua Jeronymo Coelho n. 33, por 2:00$;
rua Riachuelo 309, por 36:900$;
rua General Paranhos, 40, 40-A e 40-B, por 11:491$;
rua Coronel Fernando Machado 182 e 184, por 60:280$;
rua General Paranhos ns. 93-4A, 95 e 107, por 75:000$;
rua Jeronymo Coelho 31, por 40:000$,
rua Coronel Fernando Machado, ns. 341 e 343, por 50:000$;
rua General Paranhos n. 93, por 15:000$;
rua General Paranhos, 60 e 60-A, por 15:800$;rua General Paranhos, ns. 2, 24, e 40-C e Andrade Neves n. 77, por 100:000$;rua General Paranhos n. 83, por 6:000 General Paranhos 54 e General Paranhos 58, por 28:000$;
General Paranhos ns. 80-A, 84, 86, 88, 90-B e 90-C, por 1000:000$;
rua Fernando Machado 347 a 353, por 59:000$;
General Paranhos 112, por 50:000$;
General Paranhos 97 e 99, por […] 1

É interessante notar a aquisição de múltiplos imóveis por um preço fechado, o que pode indicar um proprietário comum para edificações vizinhas, a julgar pela numeração. Isso seria consistente com às recorrentes menções a “casinhas” para aluguel para a população pobre trabalhadora.

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Fig. 5: Fotografia da demolição de outro trecho da Rua General Paranhos. Década de 1920. Porto Alegre. Biografai duma Cidade, 1941
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Fig. 6: “Viaducto à Rua Duque de Caxaias –  Corte da Rua General Paranhos”. Projeto de eng. Duilio Bermardi na resvista “A máscara” de 06/02/1925.
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Fig. 7: Projeto vencedor do Viaduto Otávio Rocha, do engenheiro Manoel Itaqui. In: MORAES, George Augusto de. A contribuição de Manoel Itaqui para a arquitetura gaúcha. Dissertação apresentada ao PROPAR/UFRGS. Orientadora: Arq. Dra. Glenda Pereira da Cruz. Porto Alegre, 2003.
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Fig. 8: Planta Cadastral de 1893, apresentando uma marcação aproximativa de tamanhos de testadas na Rua General Paranhos. Em amarelo, testadas entre 3 e 6m; em rosa, as maiores de 7m. Arquivo Municipal Moisés Velinho.

Como fica evidente nas figuras 3 e 5, a antiga General Paranhos/Beco do Poço alterna edificações assobradas e de testadas maiores nas esquinas, entremeadas de casas térreas mais frequentes nos trechos centrais das quadras. Esse padrão reflete a lógica que valorizava os lotes de esquina com ruas principais, deixando o interior da quadra para as moradias mais humildes.

A fotografia da revista “A Máscara” (Fig. 2) mostra, apesar do ângulo pouco vantajoso para a observação, o conjunto do que parecem ser casas térreas, provavelmente de origem colonial, revestidas de uma roupagem neoclássica. Esta se evidencia pelos arcos plenos nas aberturas e presença de platibanda escondendo o telhado, porém sem contar com porões elevados. Do mesmo lado da foto, nota-se os beirais do que parecem ser as casas térreas retratadas por Pelichek. De acordo com a pintura, pode-se dizer que trata-se de típicas casas térreas coloniais, com águas perpendiculares à direção da rua, e sem condutos pluviais. Suas aberturas apresentam ora vergas retas, ora vergas em arco abatido, também típicas da arquitetura colonial portuguesa.

Adiante, vê-se um sobrado de meia-água com platibanda e duto de coleta de águas da chuva descendo pela empena lateral. Tem aspecto dilapidado, podendo tratar-se de um antigo sobrado convertido em habitação multifamiliar. Sua altura e cobertura características fazem desta edificação uma referência que pode, em outras fotografias, identificar o lugar como sendo o Beco do Poço ou antiga General Paranhos. Também a respeito dos sobrados do Beco do Poço, Pesavento (2008), transcreve a seguinte passagem de jornal: “na quadra seguinte e em frente a um sobradinho antigo, com três janelas no pavimento superior, e duas janelas e porta com corredor, no térreo, o Quirino parou.”1 Esta descrição parece indicar um sobrado do tipo colonial urbano, anteriormente descrito por autores como Reis Filho (2006) e Veríssimo (1999) como sendo o tipo arquitetônico prevalente nas cidades brasileiras de colonização lusa. Em especial, a descrição “porta com corredor” remete claramente à distribuição típica dos cômodos destes sobrados que, em planta, que ocupam de lado a lato o lote, resultando em um corredor que partia da porta de entrada e levava até os fundos, passando por alcovas.

A aquarela de Pelichek ainda mostra a edificação térrea da esquina seguinte à do sobrado, que provavelmente é de origem colonial. Teve, porém, sua fachada adaptada ao gosto neoclássico: o telhado é escondido por platibandas, e janelas com bandeiras em vergas retas.

Vê-se, assim, uma alternância de temporalidades nas edificações que configuram este beco. Ainda na foto da revista “A Máscara”, e ao lado de casas térreas e sobrados de provável origem colonial, vê-se uma alterosa edificação de esquina em estilo eclético. Isso indica, mais uma vez, a valorização dos terrenos de esquina dos becos junto às ruas principais.

As figuras 6 e 7 mostram o projeto dos engenheiros Duilio Bernardi e Manoel Itaqui para a Avenida Borges de Medeiros e seu viaduto, Otávio Rocha em homenagem ao Intendente falecido em 1928, sob a Rua Duque de Caxias. Inaugurada em 1935, nas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, a avenida Borges de Medeiros se tornou um dos símbolos da modernidade urbana em Porto Alegre.

Referências:

1. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 412-413.
2. CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. pp. 116-117.
3. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 126.
4. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 148.
5. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Era uma vez o beco: origens de um mau lugar. In: BRESCIANI, Maria Stella (org.). Palavras da cidade. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001. pp. 105-106.
6. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 17-18.
7. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 17-18
8. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 80-83.
9. CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 117.
10. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 15.
11. CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. pp. 17-18.
12.. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 14.
13. FRANCO, José da Costa. In: CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 46.
14. CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 36.
15. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 20.
16. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 185.
17. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 20.
18. PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008. p. 151.
Gazetinha, 05.03.1896. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008. p. 165.
19. MAZERON, Gaston Hasslocher. Reminiscências de Pôrto Alegre: A Cidade Baixa não existe mais. Almanaque do Correio do Povo, 1949. pp. 156-158. Disponível em: http://pwweb2.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/cidadebaixa/usu_doc/cidade_baixa_cp_1949.pdf p. 156.
20. MAZERON, Gaston Hasslocher. Reminiscências de Pôrto Alegre: A Cidade Baixa não existe mais. Almanaque do Correio do Povo, 1949. pp. 156-158. Disponível em: http://pwweb2.procempa.com.br/pmpa/prefpoa/cidadebaixa/usu_doc/cidade_baixa_cp_1949.pdf p. 156.
21. PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 99.
22. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 80-83.
Correio do Povo, 19/02/1926: “O Becco do Poço em polvorosa!..”.Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.
23. FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 80-83.
24. MONTEIRO, Charles. Porto Alegre: urbanização e modernidade: a construção social do espaço urbano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.
25. Correio do Povo, 12/06/1926. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.
26. Gazetinha, 12.05.1898. apud PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008. p. 183.

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