O que é um beco?

Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o termo “beco” é de etimologia incerta, porém de conotação frequentemente negativa:

BECO /ê/ (1442 cf. IVPM) 1. rua estreita e curta, por vezes sem saída; ruela. 2. CE m.q. ESQUINA beco sem saída fig. 1. situação desesperada; problema irremovível 2. circunstância embaraçosa, dificuldade, aperto. desinfetar ou desocupar o beco fig B infrm 1. deixar o caminho livre, retirar-se 2. fig infrm falecer despejar o beco fig P infrm ser porto para fora de algum lugar. Tapar ou tomar todos os b. B fig não dar margem a escusas ou a defesa. ETIM prov. Lat. via, ae ‘caminho, estrada’ + -ecu suf. dim. > *vieco ‘rua pequena e estreita’> *veeco> *vêco, com troca do v por b – SIN/VAR ver sinonímia de via.1

 

 

No caso de Porto Alegre, um beco é geralmente uma rua secundária da cidade, ou seja, uma rua que cruza as suas ruas principais: a Rua Duque de Caxias (antiga Rua da Igreja), a Rua Riachuelo (antiga Rua da Ponte) e a Rua dos Andradas (até hoje também Rua da Praia), conforme a imagem abaixo:

Porto_Alegre_GoogleEarth_14042014_BECOS_centrais_w
Fotografia de satélite de Porto Alegre (Google Earth, 14/04/2014) sobre a qual foram marcadas as ruas principais (em amarelo) e a localização presente dos antigos becos (em vermelho)

Nesse âmbito, a especificidade do beco é ser um espaço gerado pelo modo como o traçado das ruas é feito sobre a topografia do sítio em que a cidade se desenvolve. Assim, os vários espaços qualificados como becos descritos na literatura, na imprensa, nos documentos oficiais e imagens parece partilhar de algumas características comuns: como dito acima, são vias secundárias, geralmente mais estreitas que as ruas principais; são localizadas na área central da cidade ou na sua periferia; são situadas sobre encostas, fazendo com que se tornem ladeiras; são espaços frequentemente associados à pobreza, à insalubridade e ao crime.

Os becos de Porto Alegre ganharam sua fama por serem tipicamente ocupados pelas camadas mais pobres da população, tornando-se assim estigmatizados pela moral da sociedade do século XIX e início do XX, e passando ao imaginário urbano da época como lugares “malditos”. Uma explicação possível para essa estigmatização dos becos é aumento da população de Porto Alegre a partir de meados do século XIX, quando, segundo Souza (1997), “a cidade caracteriza-se por uma ocupação intensiva em toda a área da península central, se rarefazendo à medida que se afasta do centro em direção aos caminhos”2, e somente

[…] a partir de 1845, com a demolição das muralhas, marcando o fim da Guerra dos Farrapos, que a cidade realmente começou a expandir-se e apresentar equipamentos mais vigorosos e sofisticados, correspondentes ao seu rápido desenvolvimento.3

Ao mesmo tempo, Pesavento (2001a) aponta para uma transformação dos becos, que passavam de espaços de ocupação rarefeita e pobre, a espaços densificados e estigmatizados:

O sentido original do termo, de natureza mais propriamente topográfica, de rua estreita, com ladeira e aberta no curso natural de uma expansão urbana não planejada, na passagem do século XVIII para o século XIX, cede lugar a uma designação depreciativa que traduz uma avaliação ao mesmo tempo moral, estética e higiênica.4

Por localizarem-se no núcleo urbano formado sobre o espigão da península, considerado como o seu 1º Distrito5,, Pesavento (1999a) caracteriza os becos aí presentes como “lugares de enclave”6:

Na nominação dos espaços malditos, a linguagem da discriminação delimita estes territórios urbanos em duas instâncias: a dos ‘lugares de enclave’, que os situa interpenetrados e lado a lado, com espaços da ‘cidade da ordem’ e o dos ‘lugares da exclusão’, que marcam uma espécie de cinturão pobre (e predominantemente negro) em torno da ‘verdadeira’ cidade.

Deve-se também levar em consideração que, devido à sua implantação sobre o sítio, a posição dos becos no relevo de Porto Alegre é predominantemente acidentada. A esse respeito, Pesavento (2001a) enumera algumas características comuns aos posicionamentos de diversos becos da cidade antiga:

Se observarmos a planta da cidade, constatamos que eles são, em geral, situados de forma transversal, em perpendicular e entrecruzando-se com as ruas ‘oficiais’ traçadas em paralelo ao longo da península. São, portanto, em sua maioria, ‘descida’ ou ‘subida’ com relação ao espigão central que constitui a ‘cidade alta’. Como diria Coruja, o Beco da Fonte ou do Jacques era ‘estreito’ e ‘ladeirento’.7

Portanto, estas são as características que definem com mais precisão o conceito de beco no contexto de cidades originadas no urbanismo colonial português, como Porto Alegre. Não se trata, pois, necessariamente, de um espaço gerado por uma via especialmente estreita, geralmente sem saída. Antes, são espaços da cidade que surgem a partir do modo de traçar a cidade no relevo.

Bibliografia: 
1
HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 423.
2SOUZA, Célia Ferraz de. Porto Alegre e sua evolução urbana. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1997. p. 67
3SOUZA, Célia Ferraz de. Porto Alegre e sua evolução urbana. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1997. p. 67
4PESAVENTO, Sandra Jatahy. Era uma vez o beco: origens de um mau lugar. In: BRESCIANI, Maria Stella (org.). Palavras da cidade. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001. p. 115.
5O 1º Distrito conforme o Ato nº 12 da Intendência Municipal, de 31.12.1892.
6PESAVENTO, Sandra Jatahy. Lugares malditos: a cidade do “outro” no Sul brasileiro (Porto Alegre, passagem do século XIX ao século XX). São Paulo: Revista Brasileira de História, vol. 19, n. 37. Setembro 1999. p. 3
7PESAVENTO, Sandra Jatahy. Era uma vez o beco: origens de um mau lugar. In: BRESCIANI, Maria Stella (org.). Palavras da cidade. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2001a. p. 97. pp. 105-106.

Legendas e fontes das imagens:

Rue Salembière (Atget)
« Cul de Sac, Salembière », ca. 1898.
Tirage albuminé, légendé et numéroté « 3603 » par l’auteur au crayon au dos du tirage.
21,8 x 17,9 cm
« Le Paris d’Atget », p.58 ; “Eugène Atget, Une rétrospective”, p.163, légendé « Impasse de la Salembière, 1898 ». Fonte: http://viviane-esders.com/product/eugene-atget-1857-1927-21/?lang=en

Impasse de la Bouteille
Charles Marville
Impasse de la Bouteille (de la rue Montorgeuil) (second arrondissement)
1865-1868
Albumen print from collodion negative
Image: 35.9 x 27.7 cm (14 1/8 x 10 7/8 in.)
Musée Carnavalet, Paris
© Musée Carnavalet / Roger-Viollet
Fonte: https://artblart.com/tag/charles-marville-rue-de-la-bucherie-from-the-cul-de-sac-saint-ambroise/

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s