Beco do Oitavo (atual Avenida André da Rocha)

 Situado na Cidade Baixa próximo ao antigo beco do Firme, a atual Rua Avaí, e também ligando a antiga Rua da Olaria (atual Rua General Lima e Silva) à Várzea ou Campo da Redenção, o Beco do Oitavo tem fartos registros das atividades ilícitas e distúrbios de que foi palco. Segundo Franco (1988), a avenida André da Rocha

“Resultou do alargamento e reforma do primitivo Beco do Oitavo, que ali existiu desde a construção do quartel do 8º Batalhão de Infantaria, em torno de 1828, no local da hodierna Praça Raul Pilla. Em ata da Câmara Municipal de 4/1/1833, já se faz referência à ‘rua travessa abaixo do edifício’ do dito quartel. E se multiplicam, de então em diante, as referências à mencionada travessa ou beco do 8º batalhão, sempre por causa de reclamações de moradores, pelos dejetos que aquela unidade militar lançava na via pública.”[1]

Este famigerado 8° Batalhão é provavelmente o grande edifício retratado por Wendroth (fig.1) em meados do século XIX e depois por Calegari (fig. 2) no final do mesmo período.

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Figura 1. Aquarela de H. R. Wendroth (1852) retratando a cidade a partir do “hospital” (Santa Casa). O grande sobrado em amarelo ao centro da imagem é possivelmente o quartel do 8° Batalhão.

Achylles Porto Alegre (1940) não se furta a denunciar a criminalidade dos próprios militares aquartelados aí, quando, ao referir-se ao Beco do Oitavo, afirma que

“Ali na Varzea, que era então um ermo, eu me lembro de haver sido atacado mais de um sujeito, por soldados do exercito [grifo da pesquisadora], que os depenavam em plena rua, deixando, uma ou outra vez, escapar, por commiseração, em fraldas de camisa.

E ai de quem tentasse reagir contra esse desacato!… Era bem capaz de ficar estendido alli mesmo, com as tripas de fóra.”[2]

Contudo, o cronista faz também referência à honradez de um dos habitantes do beco, detalhando a precariedade de sua casa na seguinte passagem:

“Alli, naquelle sitio, entre as travessas do Cruzeiro [sic] e Bento Gonçalves [Beco do Jacques], existiu um predio com frente para o norte, um pouco acima do nivel da rua, com tres janellas e uma porta ao lado. Ahi morava um bom homem, trabalhador como elle só com a sua honrada família. Era o velho Simoni.

No portão da habitação, cuja entrada era pelo lado, havia umas quatro ou cinco portas para dar accesso ahi. Antes, porém, de penetrar no ‘rez-do-chão’, se tinha que descer uma rampa de pedras soltas que não offerecia a menor segurança, parecendo antes uma armadilha para os mais virarem alli de pernas para o ar.”[3]

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Figura 2. Foto de Virgílio Calegari do quartel do 8° Batalhão, fim do séc. XIX/início do séc. XX. (Oliveira, 1983. p.36)

Não falta na fala de Porto Alegre (1940), também, a referência a casas de jogo no Beco do Oitavo, a que exemplifica com o “Rei de Ouros”, a “bodega do cabo Salles, praça reformada do exercito”[4]:

“Quizesse ou não quisesse, havia de prestar attenção áquelle ‘Rei de Ouros’ já velho, de cabeça branca que ali estava como um chamariz para a jogatina [grifo da pesquisadora].

E a casa vivia cheia de homens e mulheres, desde que o sol apontava até um pedaço de noite.

De repente, armava-se um rolo alli. Era preciso, então, a intervenção do cabo Salles, que aparecia de cacete á mão.

Elle era um pardavasco, cheio de corpo e valente como as armas. […]

No grosso do conflicto, em que as facas e os cacetes riscavam nos ares, á voz do cabo Salles, a coisa serenava logo. Era agua fria na fervura.

A gente que frequentava o seu botequim era da peor especie e muito conhecida no becco pelos seus disturbios [grifo da pesquisadora].

Quasi todos traziam ainda no corpo as cicatrizes dos ferimentos colhidos nas lutas em que se acharam envolvidas.”[5]

 

De fato, as menções a distúrbios, “gente da peor espécie” e jogos de azar serão uma constante até as primeiras décadas do século XX (figs. 81 e 82). Segundo Franco (1988),

“Nos primeiros decênios do século XX, toda a rua se transformou num grande foco de meretrício e cabarés de terceira ordem. E só perdeu essa característica em 1938, quando o Prefeito José Loureiro da Silva, em sua primeira administração, desapropriou as casinhas que marginavam a rua, alargando-a, e ali implantando uma avenida de duas pistas, que passou a ser oficialmente denominada Avenida 3 de Novembro.”[6]

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Figura 3. A entrada do Antigo Beco do Oitavo em fotografia do início do século XX. (Pasavento, 1992, p.43)

Os indícios encontrados na imprensa também apontam para este beco um espaço de sociabilidades marginalizadas e ocupação humilde. O jornal O Exemplo, traz os seguintes anúncios como “aluga-se casas de 12 a 20$ na rua 3 de Novembro n. 5 (antigo becco do Oitavo). Trata-se com Salvador Antonio da Silveira, na mesma rua n. 23”.[7] O Correio do Povo, já na década de 1920, não raro trazia manchetes como “Um homem fere outro, no becco do Oitavo”[8] ou “No Becco do Oitavo – Num conflicto entre praças da Brigada e civis, sahiram feridos dois soldados”[9]. Nem mesmo o órgão oficial de comunicação do Partido Republicano Rio-grandense, o jornal “A Federação”, se furta a mencionar o beco do Oitavo para defender suas praças, pois é notório o envolvimento das mesmas nos conflitos e desordens:

Conflicto no Becco do Oitavo – Na noticia sob as epigraphes – ‘Ultima hora – Grave conflicto no Becco do Oitavo’ – inserta em o número de hoje do “Correio do Povo” ha o seguinte trecho que transcrevemos aqui, fazendo a seguir o reparo que merece:

Diz a noticia:

‘Como tem succedido innumeras vezes, foram promotores da grande desordem desta madrugada varios soldados da Brigada Militar, desordeiros contumazes, bastante conhecidos dos moradores daquelle Becco. Esses individuos, reconhecidamente perigosos á ordem publica, andam pelas ruas ostensivamente armados, e, quasi sempre, alcoolisados, não trepidam por qualquer motivo, em promover desordens, fazendo uso de armas de fogo, e commetendo as maiores tropelias.’

O nosso confrade foi mal informado. A affirmativa que fez no trecho transcripto é falsa pois, tendo os soldados implicados no conflicto chegado recentemente a esta capital, vindos do interior do Estado, onde servem em corpos auxiliares, sem que anteriormente aqui tivessem servido ou permanecido, não podiam ser bastante conhecidos pelos moradores do Becco do Oitavo, nem ser tidos como desordeiros contumazes, tanto assim que é esta a primeira falta que comemettem, após sua chegada.

Esta circunstancia em verdade não, attenua a conducta reprovavel dessas praças, que serão submettidas a rigoroso inquerito militar, afim de ser apurada a responsabilidade de cada uma, e que sacrificaram o confeito em que é justamente tida a briosa e disciplinada força estadoal.[…][10]

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Figura 4. Notícia da demolição do Beco do Oitavo do Diário de Notícias de 20/02/1938. Acervo Adriana Bednarz/Hermeroteca do Museu Hipólito José da Costa.

Tem-se, portanto, no Beco do Oitavo, as características marcantes dos antigos becos da cidade, com o acento nos relatos de ocorrências criminais citados por inúmeras fontes. Ainda que não se situasse na região mais importante da cidade durante os seus primeiros séculos,  e nesse sentido as tardias obras de seu alargamento e melhoramento apontam, o Beco do Oitavo era alvo de menções frequentes na literatura e na imprensa.

Hoje em dia, ainda parece permanecer um remanescente daquela época: o prédio da sede Sindicato Dos Estivadores E Dos Trabalhadores Em Estiva De Minérios de Porto Alegre (Des. André da Rocha, 282), em claro estilo eclético.

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Figura 5. Sindicato dos Estivadores e dos Trabalhadores em Estiva de Minério de Porto Alegre, Beco do Oitavo

Contudo, Bednarz (2011, p. 20)

“A derrubada de 23 prédios no lado par da rua 3 de Novembro extinguiu o Beco do Oitavo, e foi o pontapé inicial do Charrua [prefeito José Loureiro da Silva] para a grandiosa remodelação da capital gaúcha que marcaria para sempre a sua gestão. No lugar do ‘beco estreito’ e de seus ‘cortiços insalubres’ surgiria uma rua moderna, ampla, reta, arborizada”.

Ou seja, hoje provavelmente o lado par é o antigo lado ímpar, que foi preservado das demolições e do qual faz parte hoje o prédio citado acima. Ao menos é o que parece indicar a Planta Cadastral elaborada pelo engenheiro Guilherme Ahrons em 1893 (fig. 6), o lado par do Beco do Oitavo (na planta como Rua 3 de Novembro) é o atual lado ímpar da rua, o que pode explicar a permanência desta construção, hoje com numeração par. É curioso notar que o então lado ímpar sequer consta desse documento da cidade.

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Figura 6. Planta Cadastral de Guilherme Ahrons (1893). Mapoteca do AHMMV.

 

Para mais informações sobre o trabalho de demolição do Beco do Oitavo, o trabalho de conclusão de curso da historiadora Adriana Laste Bednarz está disponível em http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/36994

Bibliografias:

[1]FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 36-37.

[2]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. pp. 69-70.

[3]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. pp. 69-70.

[4]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. pp. 69-70.

[5]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. pp. 69-70.

[6]FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 36-37.

[7]O Exemplo, 19/10/1902. Anno I – Numero. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa. p. 3.

[8]Correio do Povo, 10/07/1925. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.

[9]Correio do Povo, 30/01/1926. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.

[10]A Federação, 06/02/1926 – “Conflicto no Becco do Oitavo”. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.

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