A Porto Alegre colonial

Há algum tempo publiquei um estudo com bico de pena e aquarela de uma parte da antiga Rua da Praia, baseada em uma foto do final do século XIX (provavelmente de Virgílio Calegari), e algumas pessoas comentaram que ela lembra muito outras cidades brasileiras, como São Luís e Ouro Preto.

Estudo Rua da Praia com Marechal Floriano baseado em foto do final do século XIX e início do XX.
Estudo com bico de pena e aquarela baseado em fotografia da esquina das ruas Marechal Floriano e da Praia no final do século XIX ou início do XX. Desenho da pesquisadora.

Mas como? É simples: tanto São Luís, Ouro Preto e Porto Alegre são cidades coloniais portuguesas, ou seja, se desenvolveram seguindo princípios muito semelhantes, como estarem situadas em um terreno estrategicamente elevado e junto a um corpo d’água, afim de garantir sua defesa, mas também com a arquitetura característica de seus primeiros sobrados e casas. Conforme Nestor Goulart Reis,

No Pará ou no Recife, em Salvador ou em Porto Alegre, encontram-se ainda hoje casas térreas e sobrados dos tempos coloniais, edificados em lotes mais ou menos uniformes, com cerca de dez metros de frente e de grande profundidade.[1]

De fato, uma vista rápida sobre algumas fotos da antiga Porto Alegre permite ver que a cidade trazia claramente essas características: as ruas definidas pelas casas, que ocupavam toda a frente e de lado a lado do lote, sem recuos para jardins como temos hoje. Como eram compridos, esses lotes permitiam o cultivo de pomares e a criação de pequenos animais nos seus quintais de fundo, o que era importante dado o comércio geralmente pouco desenvolvido nas cidades coloniais dos primeiros tempos.

Abaixo, algumas fotos de Porto Alegre no final do século XIX/início do XX mostrando a forma dos lotes e como as casas os ocupavam:

Também nas dimensões de seus lotes Porto Alegre traz a marca do urbanismo colonial português, ou seja, de testada estreita e grande comprimento. Nas palavras de Spalding (1967),

São Francisco dos Casais [nome então dado ao povoado] começava a surgir, a se manifestar não mais como simples povoado com casas espalhadas por diversos pontos, mas em povo ordenado, com casas regularmente construídas ao longo de ‘ruas’ e estradas, lembrando os seus povoados ilhéus, com casinhas pintadas de branco e portaladas e janelas de azul.[2]

Nisso, são muito semelhanças aos exemplares da arquitetura popular portuguesa examinados por Moutinho (1979): “as paredes são rebocadas e caiadas de branco. O telhado é de uma ou duas águas, coberto de telhas assentes em canas.”[3] É possível observar estas características em diversas fotografias de Porto Alegre no século XIX/início do XX, como nas figuras seguintes.

                As casas e sobrados, em si, traziam como características os beirais proeminentes, as espessas paredes e janelas emolduradas de cores mais escuras que as paredes caiadas, e muitas vezes encimadas por arcos abatidos. Reis (2006) dá uma descrição mais detalhada de como essas casas e sobrados coloniais eram construídas e divididas internamente:

As técnicas construtivas eram geralmente primitivas. Nos casos mais simples as paredes eram de pau-a-pique, adobe ou taipa de pilão e nas residências mais importantes empregava-se pedra e barro, mais raramente tijolos ou ainda pedra e cal. O sistema de cobertura, em telhado de duas águas, procurava lançar uma parte da chuva recebida sobre a rua e a outra sobre o quintal, cuja extensão garantia, de modo geral, a sua absorção pelo terreno. Evitava-se, desse modo, o emprego de calhas ou quaisquer sistemas de captação e condução de águas pluviais, os quais constituíam verdadeira raridade. A construção sobre os limites laterais, na expectativa de construções vizinhas de mesma altura, procurava garantis uma relativa estabilidade e a proteção das empenas contra a chuva, o que, quando não era correspondido, se alcançava através do uso de telhas aplicadas verticalmente.  A simplicidade das técnicas denunciava, assim, claramente, o primitivismo tecnológico de nossa sociedade colonial: abundância de mão-de-obra determinada pela existência do trabalho escravo, mas ausência de aperfeiçoamentos.[4]

E ainda:

As salas da frente e as lojas aproveitavam as aberturas sobre a rua, ficando as aberturas dos fundos para a iluminação dos cômodos de permanência das mulheres e dos locais de trabalho. Entre essas partes com iluminação natural, situavam-se as alcovas, destinadas à permanência noturna e onde dificilmente penetrava a luz do dia. A circulação realizava-se sobretudo em um corredor longitudinal que, em geral, conduzia da porta da rua aos fundos. Esse corredor apoiava-se a uma das paredes laterais, ou fixava-se no centro da planta, nos exemplos maiores.[5]

É importante lembrar que tanto a construção das casas e sobrados e das cidades coloniais brasileiras dependiam diretamente de mão-de-obra escravizada, assim como quase todos os serviços urbanos (coleta e descarte de dejetos, adução de água e alimentos, limpeza e tantos outros). Entre outros fatores, a tardia abolição da escravatura contribuiu também para manter as cidades brasileiras com infraestrutura pouco desenvolvida.

Infelizmente, hoje em dia Porto Alegre conserva pouquíssimos exemplares de sua arquitetura colonial em seu centro histórico. Ondas de demolição e reconstrução desse antigo patrimônio que remontam ao início do século XX contribuíram para o esquecimento dessa identidade comum com tantas outras cidades brasileiras.

Referências:

[1] REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 24.

[2]SPALDING, Walter. Pequena história de Porto Alegre. Porto Alegre: Sulina, 1967. p. 33.

[3]MOUTINHO, Mário C. A Arquitectura popular portuguesa.Lisboa: Editorial Estampa, 1979. p. 118.

[4] REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2006. pp. 24-26.

[5] REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 2006. p. 24.

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