Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1839

OS BECOS ATRAVÉS DAS PLANTAS DE PORTO ALEGRE

“Porto Alegre está situada nas margens do Guaíba, na desembocadura de cinco rios, e comunica-se com o interior e com o porto de Rio Grande através da laguna dos Patos e desses rios. A cidade localizava-se numa colina, em uma espécie de península que avançava sobre o lago Guaíba. O seu divisor de águas, a atual rua Duque de Caxias, foi também um divisor do território. Sua margem norte era contemplada com as melhores condições de navegabilidade quanto à profundidade e à proteção dos ventos dominantes, e ali foram sendo construídos os trapiches e embarcadouros desde os primórdios da formação da cidade. […] O lado sul representava as ‘costas da cidade’. A exposição ao vento Minuano, forte e desagradável, afastava as populações e as suas atividades do local, fazendo com que tivesse uma densidade de ocupação muito baixa, abrigando uma população de excluídos da sociedade, de gente desempregada, que vivia de expediente.”[1]

Como diz acima Célia Ferraz de Souza, o divisor de águas no relevo do sítio escolhido para a fixação das primeiras moradias que deram origem a Porto Alegre teve um papel importante no seu desenvolvimento. Como se pode ver na planta de 1839 (fig. 3), os becos da cidade se formaram sobre estas duas encostas, especialmente a norte, já que era a mais ocupada. Essa configuração de ruas e becos em encostas é típica das cidades coloniais portuguesas no Brasil.

Pode-se ter uma idéia de como essas vias da cidade foram se formando e desenvolvendo ao observar os registros desse processo, ou seja, as plantas e mapas da cidade produzidas desde seus primórdios. Nelas, pode-se ver como os becos são representados, o que dá pistas de suas características ao longo do tempo.

A planta de 1833 – Pianta da Cidade de Porto Allegre, 1833 de Livio Zambecari (fig. 1) – é bastante esquemática, indicando a ocupação densa da encosta norte do espigão. Nas suas legendas citam-se alguns dos principais marcos e ruas da cidade, bem como referências a casas particulares, sem contudo fazer menção a becos. No mapa propriamente dito, só aparecem as letras e números que são relacionados nas legendas. Entretanto, é possível localizar a provável posição do Beco do Couto ou do Cordoeiro, em direção à Santa Casa, em região ainda relativamente pouco ocupada. Também pode-se observar a representação de áreas verdes nessas vizinhanças, correspondendo ao que a literatura descreve como chácaras. Da mesma forma, tem-se na mesma região uma possível localização do futuro Beco da Cadeia ou do Trem, cruzando o anterior. Mais a oeste, pode-se estimar as possíveis localizações dos futuros Beco do Poço, do Meirelles e do Freitas, ou Rua General Paranhos, bem como das Travessas Angustura e Itapirú. Entretanto, esta planta não permite determinar com exatidão a posição dos antigos Beco dos Guaranis (Rua Vasco Alves), Beco do Bot’à Bica (ou do João Manoel Vieira, atual General Portinho); Beco do Pedro Mandinga ou Rua Direita (Rua General Canabarro, embora este esteja indicado possivelmente pela quebra de sentido na altura da rua da Igreja (Duque de Caxias), o que é consistente com os mapas subsequentes); Beco dos Sete Pecados Mortais, Jogo da Bola e Nabos a Doze (Rua General Bento Martins); a Rua Clara (General João Manoel) e Beco do Fanha (Rua Caldas Júnior), embora seja possível que já se encontrem aí representados, dada a grande ocupação da encosta norte aí registrada. Por outro lado, já é possível ver esboçada a localização do Beco do Império ou Cemitério, ao lado da Igreja Matriz.

Planta de Porto Alegre - 1833

A planta de 1838 (fig. 2) – Planta da cidade de Porto Alegre Capital da Provincia do Rio Grande de S. Pedro do Sul, vista do rio e terra em toda a sua circumferencia, sua estatística correspondente, demonstração do entricheiramento que lhe tem servido de defeza desde o memoravel dia 15 de Junho de 1836, em que foi verificada a reacção legal, movida por motivo da comoção na Provincia que teve principio nesta mesma cidade em 20 de Setembro de 1835 até ao 2° anno de sua data, tempo em que esta he concluida: achar-se-hão mais as declarações necessarias á sua intelligencia, assim como commemorações do que mais pode interessar a respeito. Porto Alegre 20 de junho de 1837, sem nome de cartógrafo – não traz indicação de topografia do terreno, mas mostra  a continuidade da ocupação rarefeita na encosta sul, bem como na região dos becos próximos à Várzea (do Oitavo, do Israel e do Firme). Em suas legendas aparecem referências a becos da cidade, e no mapa propriamente dito, só aparecem as letras e números que são relacionados nas legendas. Na 1ª parte das legendas intitulada “Estatísticas dos subúrbios e entrincheiramento da cidade” três becos são mencionados: (3) Beco do Freitas Travassos, (4) Beco de Antônio Gonçalves Carneiro e (6) Beco de Antônio Martins Barbosa. Na parte intitulada “Estatísticas da Cidade”, oito becos são nomeados como tal: (86) Beco da Fome, (87) Beco do Quartel do 8° Batalhão, (89) Beco do Firmo, (90) Beco do Israel Soares de Paiva, (94) Beco do Brito, (95) Beco da Casa da Opera, (96) Beco do Barriga e (99) Beco do Fanha. O beco do Firme está indicado como “Beco do Firmo”, consistente com os erros por vezes cometidos pelo poder público descritos por Porto Alegre[2] (1940), e pode-se notar as edificações representadas em sua esquina junto à paliçada da cidade, como afirma Franco (1988). Mais a leste, a indicação da Igreja do Rosário permite localizar o beco do Rosário, ocupado quase que somente em seu primeiro trecho, o mais próximo à Praça do Paraíso (Mercado Público), bem como o Beco do Couto, que em sua margem leste aparece como “Chácara de S. Rafael, Fonte e Potreiro”, no número 29. Este aparece indicado como “Rua do Coito, ou do Cordoeiro” (nº 79). Na posição do Beco do Jacques aparece o de número 89, indicado como “Beco da Fome”, o que pode ser um possível erro ortográfico. O Beco do Trem ainda aparece aberto entre as ruas de Bragança (Marechal Floriano) e do Rosário (Vigário José Inácio).

Imagem 2
Figura 2: Detalhe de Porto Alegre de 1838 com os becos indicados em sua legenda e marcados em vermelho pela pesquisadora.

Já a planta de 1839 (fig. 4) – Planta da Cidade de Porto Alegre, por L. P. Dias. Com a linha de Trincheiras e Fortificações que lhe tem servido de defesa desde o memorável dia 15 de junho de 1836, com as rectificações e melhoramentos que se tem feito por motivo de ter sido atacada pelos sediciosos em 1836, 1837 e sitiada em 1838, 1839 tempo em que esta he concluída com duas Vistas, hua de Leste, outra do Oeste com as declarações a respeito. Porto Alegre, 2 de Dezembro de 1839, feita por Luiz Pereira Dias – é rica em detalhes. Em suas diversas legendas vários becos aparecem e no mapa propriamente dito, só aparecem as letras e números que são relacionados nas legendas (fig. 3). Na legenda da Vista de Leste, não há menção aos becos, mas na legenda da Vista de Oeste o (34) Beco do Barbosa é nomeado. Já na legenda do mapa propriamente dito, intitulada “Estatística da Cidade e Subúrbios” onze becos são nomeados: (31) Bêco do Leite, (32) B. do Coelho, (33) Beco do Fanha, (34) Beco da Fonte, (35) B. da Opera, (36) B. do 8° Batalhão, (37) B. do Firme, (38) B. do Israel, (39) B. do Barboza, (40) B. do Chico Pinto e (41) B. do Carneiro.

Planta de Porto Alegre - 1839
Figura 3: Planta de Porto Alegre de 1839 em sua versão original: as ruas e becos estão sinalizados por letras e números identificados na legenda.

Na sua “vista de Oeste”, nota-se a representação dos grandes quintais de interior de quadras, que correspondem à baixa densidade de ocupação urbana apontada por Nestor Goulart Reis (2000), típica do urbanismo colonial português: “as quadras, quando completamente edificadas, compunham-se de uma linha contínua de construções, dos lados das ruas, com um grande vazio constituído pelos quintais, na parte interior.”[3] Na “vista de Leste” aparecem representados a Igreja Matriz e um trecho descampado consistente com a localização do posterior Beco do Jacques (Rua 24 de Maio), subindo em direção à rua da Igreja e posicionado de modo aparentemente transversal ao trajeto presumido do Beco do Oitavo (Avenida André da Rocha) e do Israel (Rua Sarmento Leite). Em seguida, destaca-se o quartel do 8º Batalhão, bem como o seu portão na paliçada de defesa da cidade, de onde se pode deduzir a localização do beco homônimo. Consistente com a representação em planta, a encosta sul logo abaixo da Igreja Matriz aparece como tendo uma ocupação rarefeita e predominantemente silvestre. Localizando a Igreja do Rosário ainda na vista Oeste, pode-se ver o possível trajeto do Beco do Rosário (atual Avenida Otávio Rocha) numa área ainda de pouca ocupação, o que é relatado por Coruja (1983[1881]): “só lhe conheci o nome de Beco do Rosário depois que se edificou o templo deste nome, entre o qual e o beco nenhuma casa então havia.”[4] Da mesma forma, mostra-se ainda de baixa ocupação o provável trajeto do Beco do Couto ou do Cordoeiro (Rua Senhor dos Passos), especialmente na sua margem Leste. Na mesma vista, a representação de um sobrado de três andares como “Caza de João Ignacio” sinaliza o trajeto do Beco da Garapa, seguido da Rua do Ouvidor ou da Ladeira (atual Rua General Câmara). Adiante, logo após a indicação da posição da Praça da Alfândega, o posicionamento dos telhados das construções indica um trajeto de subida da encosta norte, possivelmente o Beco do Fanha (atual Rua Caldas Júnior) ou a Rua Clara (atual Rua General João Manoel). Finalmente, a representação da Igreja das Dores permite localizar dois percursos de subida da encosta cujas posições correspondem às do Beco dos Sete Pecados Mortais (atual Rua General Bento Martins) e do Beco do Pedro Mandinga ou Rua Direita (atual Rua General Canabarro).

De modo geral, os becos que percorrem transversalmente a península mostram uma ocupação bem menos densa na encosta sul, e especialmente nos trechos de declividade mais acentuada marcados no mapa, o que pode indicar uma dificuldade de ocupação devido à topografia.

Como esperado, os becos próximos à área da Várzea (do Oitavo, do Firme e do Israel) apresentam ocupação bastante baixa, possivelmente predominantemente rural, conforme o mapa.

Imagem 3
Figura 4: Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1839 com os becos mercados em vermelho e identificados pelos seus números e nomes. Imagem de autoria da pesquisadora.

Conforme Fialho, a planta de 1844 (fig. 5) – Planta da Cidade de Porto-Allegre, 1844 de Conrado Jacob de Niemeyer -,

[…] se apóia na planta de L. P. Dias, impressa cinco anos antes. Isto pode ser constatado ao comparar-se o traçado das duas: a mesma configuração das muralhas; o desenho das curvas de nível que aparecem estão posicionadas quase que no mesmo local; as quadras e prédios desenhados têm uma semelhança bastante grande.[5]

Esta planta possui uma legenda de com 30 especificações onde não há menção aos becos e no mapa propriamente dito, e mantêm as características do de 1839, onde só aparecem as letras e números que são relacionados nas legendas. Assim, não traz diferenças significativas nas representações dos becos, continuando o padrão de baixa ocupação na encosta sul do espigão. Suas legendas não nomeiam nenhuma rua ou beco.

Imagem 5
Figura 5: Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1844 mostrando as localizações prováveis dos becos marcados em vermelho pela autoria.

Na planta de 1868 (fig. 6) – Planta da Cidade de Porto Alegre Capital da Provª. De São Pedro do Rio Grande do Sul feita por Antonio Eleuthério de Camargo – suas legendas não nomeiam nenhuma rua ou beco.

Planta de Porto Alegre - 1868
Figura 6: Planta de Porto Alegre de 1868, mostrando o traçado das ruas da cidade sem porém identifica-los.

Os nomes das ruas aparecem no mapa propriamente dito, como alguns logradouros – nove – que são intitulados como beco: Beco da Bahia (atual R. Demétrio Ribeiro), Beco do Império (atual R. do Espírito Santo), Beco do Leite (rua que interligava antigamente a Rua Andrade Neves com a Rua dos Andradas – não mais existe), Beco do João Coelho (atual Trav. Eng. Acilino de Carvalho), Beco do Fanha (atual R. Caldas Júnior), Beco do Firme (atual Rua Vinte e Quatro de Maio), Beco da Ópera (atual R. Uruguai), Beco do 8º (atual Av. Des. André da Rocha) e o Beco do Rosário (atual Av. Otávio Rocha). Nota-se no local do Beco dos Guaranis a indicação da edificação do “Antigo Quartel dos Guaranis”. Curiosamente, o Beco do Jacques aparece com um nome diferente, sendo sinalizado na planta como “Beco do Liceu”. Porto Alegre (1940) parece aludir a esse beco que subia para o Liceu, cuja posição dos alicerces são indicados pelo número 15 neste mapa, tornando-o consistente com o nome modificado do logradouro:

Ranchos de moças e rapazes de famílias visinhas, desciam ao cahir da tarde a lomba do Lyceu, alegres e contentes em busca da fresca que se encontrava sob a alameda que ia da Ponta de Pedra ao chafariz. Era uma nesga de matto bem espesso, que dava ao local um ar de roça.[6]

Já o Beco do Trem aparece fechado, descontinuando-o com a Rua Nova (Andrade Neves), conforme descrito por Franco (1988):

[…] em 1824, Lourenço Antônio Pinto de Miranda, invocando direitos de propriedade sobre um terreno da Rua de Bragança, começou a construir ali um prédio que interrompia o desenvolvimento do Beco da Cadeia. A Câmara Municipal (em 21/2/1824) expediu mandado de demolição do ‘princípio de edifício’ que ali fazia o mesmo Miranda […] A demanda se arrastou desde 1829 até 1846, quando todos os recursos da Municipalidade se esgotaram, e, derrotada, a Câmara teve de devolver ao contendor a posse do terreno questionado. Fechou-se assim a já estreita ligação que havia entre as ruas de Bragança e do Rosário, conhecida como Beco do Trem […][7]

Nesse mesmo lado, nota-se considerável aumento na ocupação da margem sul do Beco do Rosário, possivelmente em função da construção da Igreja Luterana, já indicada na planta. Outro aspecto importante desta planta é o fato de o Beco do Rosário e a futura General Paranhos (Beco do Poço/Meireles/Freitas) estarem representados significativamente mais estreitos do que as ruas principais da cidade, conforme várias descrições de época.

De modo geral, o padrão de ocupação dos becos permanece inalterado, sendo mais escasso na encosta sul. Pode-se dizer que se faz exceção a esse padrão nas esquinas das ruas longitudinais, como ocorre com os becos do Firme e do Oitavo junto à Rua da Olaria.

Imagem 7
Figura 7: Detalhe de Planta de Porto Alegre de 1868 com a localização dos becos indicados na legenda e marcados em vermelho pela pesquisadora.

A planta de 1872 (fig. 8) – Planta da Cidade de Porto Alegre, sem indicação de cartógrafo -, segundo Fialho (2010), é uma planta feita provavelmente em 1864 e que não possui legendas. Algumas ruas estão nomeadas no mapa propriamente dito, mas nenhuma delas é nomeada como beco. A planta traz apenas indicações dos traçados das ruas e principais edificações da cidade, entre outras, não representando a ocupação ou topografia. Apenas as principais ruas estão indicadas, e o único beco mencionado é o Beco do Couto ou Cordoeiro, agora aparecendo ali como “Rua do Nosso Senhor dos Passos”.

Imagem 8
Figura 8: Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1872 mostrando as localizações dos becos marcados em vermelho pela pesquisadora.

A planta de 1881 (fig. 9) – Planta da cidade de Porto Alegre. Organisada segundo os documentos officiais existentes, completada e executada pelo Engenheiro Henrique Breton, 1881 – não possui legendas. As ruas, praças, espaços e prédios importantes estão nomeados no mapa propriamente dito. O termo beco não é utilizado para nomear nenhum local. Desse modo esta planta traz uma característica marcante: nela, o termo “beco” desaparece completamente das indicações dos diferentes logradouros da cidade, substituídos pelas novas nomeações em homenagem aos heróis da Guerra do Paraguai. Segundo Macedo (1993),

“A Proclamação da República trouxe algumas alterações à toponímia. O povo saiu às ruas arrancando placas que evocavam o império e substituindo-as por novas, representativas do novo regime. A Rua da Imperatriz passoua ser Rua Venâncio Aires, a do Imperador ganhou o nome de Rua da República, e a Câmara termina por associar-se ao sentimento popular e, em 11 de dezembro de 1889, a Praça Conde d’Eu passa, legalmente, a se chamar Praça 15 de Novembro.”[8]

De acordo com a massa edificada representada nessa planta, nota-se um aumento na ocupação da encosta sul do espigão, mas ainda mais acentuada ao longo dos percursos longitudinais (Rua do Arvoredo, Rua da Varzinha, Rua da Margem).

Imagem 9
Figura 9: Planta de Porto Alegre de 1881, com os novos nomes dos logradouros colocados diretamente sobre os  seus locais.

Na região leste do atual centro histórico, o Beco do Trem permanece fechado, descontinuando a Travessa 2 de Fevereiro e a Rua Nova (atual Rua Andrade Neves), e nota-se ligeiro aumento de ocupação da margem leste do Beco do Couto, enquanto que o Beco do Rosário permanece aproximadamente com a mesma ocupação.

Imagem 10
Figura 10: Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1881 com a localização dos becos indicada em vermelho pela pesquisadora.

A Planta de 1888 (fig. 31) – Planta de Porto Alegre, Capital da Província do Rio Grande do Sul comprehendendo os seus arraiaes, organisada e desenhada pelo Capitão de Artilharia e Engenheiro Militar João Candido Jacques – possui uma legenda intitulada ‘Quadro Estatístico’ com 55 elementos, na qual nenhum logradouro é nomeado, apenas praças e edificações. Os logradouros estão nomeados no mapa propriamente dito, onde aparecem nomes de ruas, travessas, estradas e apenas um beco – o Becco do Valle, atual Rua Dr. Vale. Menos esquemática que a planta de 1872, a planta de 1888 ainda parece trazer indicações simplificadas da ocupação de cada quadra da área central da cidade. Contudo, pode-se notar uma continuidade na densificação da encosta sul do espigão, especialmente ao longo do Beco do Poço, Beco do Rosário e Beco do Couto, bem como o Beco do Arco da Velha e a Travessa 2 de Fevereiro. Pode-se especular quanto à ocupação adensada nesta área entre a Praça da Matriz e o Mercado Público, diferentemente da ponta da península, mais próximo à Igreja das Dores. Da mesma forma que a planta de 1881, esta planta também não traz nomes de becos nas indicações de seus logradouros, mantendo os nomes oficiais dados anteriormente.

Imagem 11
Figura 11: Detalhe da Planta de Porto Alegre de 1888 com as posições dos becos indicadas em azul pela pesquisadora.

Já no início do século XX, a “Planta Topographica Antiga da Cidade de Porto Alegre[9] (fig. 12) não possui legenda e apenas a Rua Sete de Setembro é nomeada em seu desenho. Esta planta traz uma diferenciação notável de larguras entre as ruas e alguns becos, mostrando como especialmente estreitos o do Fanha, o Angustura, o do Brito, o do Poço, o do Rosário, o do Firme, o Oitavo, o do Jacques e o do Couto. Os becos da ponta da península aparecem bem mais largos em comparação. Com o propósito de destacar as curvas de nível da região da península, não traz os nomes dos logradouros.

De modo mais específico, a planta altimétrica de Porto Alegre (acervo do AHMMV) indica claramente os becos ao longo dos percursos mais acidentados do relevo do espigão, correspondendo à típica disposição das ruas travessas do traçado urbano colonial português que lhes dá origem.

Finalmente, uma planta de 1916 – Planta da Cidade de Porto-Alegre Capital do Estado do Rio-Grande do Sul, organisada pela Intendencia Municipal – possui um quadro estatístico com 68 nomes que apenas indicam praças e edifícios da cidade. Os nomes dos logradouros estão inscritos no mapa propriamente dito, e não traz indicação de ocupação das quadras, destacando o traçado viário, e o termo “beco” também está ausente nesta representação.

Imagem 12
Figura 12: “Planta Topographica (antiga) da cidade de Porto Alegre”. Em rosa, os becos desenhados com larguras menores. Notar o posicionamento dos becos em relação à topografia.

Pode-se dizer, portanto, que aquilo que os mapas e plantas trazem varia de acordo com sua finalidade específica e o momento histórico em que foram feitos. É interessante notar, por um lado, o apagamento do termo “beco” a partir da planta de 1881 na região do atual centro histórico, substituindo-o por “travessa” ou “rua”, seguida de um nome que faz referência às batalhas e personalidades da Guerra do Paraguai. Com a proclamação da República, essa nova nomenclatura vai se consolidar, em conformidade com os impulsos de modernização da cidade, ambicionando descartar a sua antiga identidade colonial em favor de uma nova identidade como “sala de visitas” do Estado.

Referências:

[1]SOUZA, Célia Ferraz de. Plano Geral de Melhoramentos de Porto Alegre: o plano que orientou a modernização da cidade. Célia Ferraz de Souza. Porto Alegre: Armazém Digital, 2010. pp. 31-32.

[2]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 15.

[3]REIS, Nestor Goulart. Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil (1500/1750). 2ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Pini, 2000. p. 150.

[4]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 105.

[5]FIALHO, Daniela Marzola. Cidades visíveis: para uma história da cartografia como documento de identidade urbana. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História. Porto Alegre, 2010. p. 238.

[6]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 57.

[7]FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. p. 138.

[8]MACEDO, Francisco Riopardense de. História de Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS, 1993. p. 80.

[9]Mapoteca do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho.

2 comentários

  1. MARCO ANTONIO SERVEIRA MALLET

    Como sou gaúcho, da cidade de Cachoeira do Sul; tenho muito interesse pela nossa história do período Colonial do nosso Estado, hoje Rio Grande do Sul.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Beco do Rosário

      Oi Marco! Eu infelizmente não conheço os autores específicos do período colonial do RS, já que concentro meus estudos no século XIX e Primeira República, mas creio que podes encontrar muito material a respeito entre os pesquisadores de História de hoje. 🙂

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