Retrato do Príncipe Custódio (Santos, 2010, p. 26)

Um príncipe africano em Porto Alegre

Figura fascinante da história de Porto Alegre, o Príncipe Custódio permanece no imaginário e tradições religiosas da cidade e de suas comunidades negras, em especial da Cidade Baixa, onde viveu por 35 anos. A sua história se entrelaça à história do imperialismo inglês na África, à história do Brasil no pós-abolição e à história dos cultos afrobrasileiros em Porto Alegre, traçando um panorama revelador em inúmeros aspectos. A seu respeito, lê-se em Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre, que

Muito se escreveu sobre o lendário Custódio Joaquim de Almeida, nascido Osuanlele Okizi Erupê, conhecido entre negros e não negros, pobres e ricos como “Príncipe Custódio”. Esse africano, da dinastia tribal de glefê, chegou a Porto Alegre bem no início do século XX, trazendo na bagagem uma vida cheia de mistérios e segredos que nem mesmo as marcas do tempo ajudaram a desvendar.[1]

Retrato do Príncipe Custódio (Santos, 2010, p. 26)
Retrato do Príncipe Custódio (Santos, 2010, p. 26)

De sua pessoa, tem-se que era “homem forte, de 1,90m de altura”[2], e que “não falava bem o português, mas expressava-se fluentemente em inglês e francês. Teve oito filhos, três homens e cinco mulheres, e vários empregados. Gostava de festas, especialmente de comemorar seu aniversário”[3]. Ainda segundo o relato de uma antiga habitante da Cidade Baixa, “[…] era um negro muito alto, que carregava sempre uma espada e vivia dando ordens para todo mundo”[4].

Também consta que esse personagem imponente habitava o número 489 da rua Lopo Gonçalves, na atual Cidade Baixa, mas que à época também era conhecida como Areal da Baronesa. Essa região é uma área de antiga e tradicional ocupação pela população negra de Porto Alegre, remontando ainda aos tempos do sistema escravista.

Diferente de muitos de seus vizinhos, o Príncipe Custódio tinha um estilo de vida digno da sociedade elegante da cidade, pois “mantinha-se com a pensão mensal que recebia do governo inglês, via Banco do Brasil”[5]. Fonseca e Rozano, se por um lado injustamente associam o Príncipe à profissão de “tratador” de cavalos, por outro detalham a origem desta renda que, segundo eles, era paga em libras esterlinas:

A história documentou que o príncipe governava seus súditos na região em que os portugueses ergueram a fortaleza de São João Batista de Ajudá, em 1680, na Costa do Ouro (hoje a República de Gana), África, para proteger o comércio e as possessões. Depois de ter pertencido a vários países em 1876, a Costa do Ouro passou ao domínio inglês, diante de acordos e compras. Para abrir caminho e evitar revoltas, os britânicos deportaram vários reis e príncipes, governantes que saíam mediante a promessa de que seus súditos não sofreriam represálias nem maus-tratos.

O príncipe de Ajudá fez o acordo em 1862 e escolheu exilar-se no Brasil, adotou o nome de José Custódio Joaquim de Almeida. Morou na cidade de Rio Grande por alguns anos e mudou-se para Bagé, onde permaneceu até 1900.[6]

Também consta que essa pensão permitia ao Príncipe cultivar a paixão pela criação e corrida de cavalos, o que fazia dele um célebre frequentador do Prado da Independência[7], no Bairro Moinhos de Vento, arrabalde tradicionalmente rico de Porto Alegre. Em reportagem dos anos 1970, os autores transcrevem uma vívida descrição dessa atividade:

Príncipe Custódio - PESAVENTO 1988 p133_w
O Príncipe Custódio em traje de gala, início do século XX. Fotógrafo desconhecido. (Pesavento, 1988, p. 133).

[O Príncipe Custódio] possuía […] cavalos de raça, alguns importados da Inglaterra, os quais todos os domingos disputavam corridas organizadas pela Protetora do Turfe no Prado Independência. Nos domingos, os cavalos inscritos nos diversos páreos saíam de sua coldelaria, devidamente cobertos por capas, tendo as cores oficiais de seu dono, rumavam pela Rua da Co[ncórdia] em direção à Venâncio Aires, subindo, após uma das ruas que ligam o Bonfim à Independência, até chegarem ao Prado no Moinhos de Vento’. O príncipe acompanhava a tropa em seu ‘laudeau’[8], puxado por dois cavalos e conduzido por um cocheiro.[9]

 

28-03-2018_MJC_Landau e Krupp 02
Exemplar de “Landau” da exposição permanente do Museu Júlio de Castilhos, de Porto Alegre. Pertencia ao governador Carlos Barbosa (1908-1913). Foto da pesquisadora, março de 2018.

Sendo uma pessoa poderosa na sociedade porto-alegrense, o Príncipe também usou de sua influência para cultivar e proteger a religiosidade afro-brasileira em Porto Alegre. Segundo Fonseca e Rozano, “‘ficou popular por manter viva a tradição religiosa de seu povo, com a prática do que agora se conhece por umbanda’.”[10]

De fato, isso encontra confirmação também no livro Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre, segundo o qual a religiosidade afro-gaúcha está estreitamente ligada à memória do Príncipe: “é uma referência primordial à figura do príncipe Custódio e do seu respectivo assentamento de Bará, o qual fora plantado na parea central do centenário Mercado Público.”[11] Na mesma publicação, a influência e trânsito do Príncipe na alta sociedade porto-alegrense do início do século XX estendia-se também à sua religiosidade: “[…] convivia muito familiarmente com a alta sociedade local, incluindo-se o Governador Borges de Medeiros, que, diz-se, era seu filho de santo [grifo da pesquisadora]”[12]. Acrescenta ainda que “seu bom relacionamento com grandes políticos da época serviu para que não houvesse perseguições pela polícia às casas de religião, um fato que vai se tornar bem marcante após sua morte.”[13] Aqui, cabe lembrar que as práticas religiosas afro-brasileiras eram proibidas e reprimidas sistematicamente desde o século XIX, sendo os terreiros e locais de culto alvos frequentes de depredações por parte das autoridades.

A morte do Príncipe, no entanto, iria demorar: longevo, consta que seu centenário marcou a vizinhança como um grande evento: “a festa de seus 100 anos [foi] a maior que a Cidade Baixa já vira. Durante os festejos, mostrando vitalidade, o príncipe de Ajudá montou um cavalo sem receber qualquer ajuda.”[14]

Contudo, ele falece em 28 de maio de 1935, quando

[…] como nas festas oferecidas à alta sociedade, os rituais fúnebres foram acompanhados de muita comida e bebida ao som dos tambores africanos que batucaram sem parar por setenta e duas horas. Quando tudo findou, a casa, que ao longo dos anos, havia recebido inúmeras personalidades políticas, como Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros e Getúlio Vargas, ficou por muito tempo abandonada e desvalorizadas no mercado imobiliário.[15]

Hoje, no número 489 da rua Lopo Gonçalves, ergue-se um sobrado típico dos anos 1930-1940. Pela imagem de satélite pode-se ver que se trata de um terreno relativamente estreito e fundo, como os antigos lotes de Porto Alegre. Nesse fundo, curiosamente, é bem provável que tenha de fato existido uma avenida de modestas casinhas madeira para aluguel, como é apontado em Colonos e Quilombolas…

De qualquer forma, é necessário preservar a memória de um personagem tão rico e fascinante da história de Porto Alegre, e que teve um trânsito singular na sociedade de uma cidade do sul brasileiro no período do pós-abolição. A sua trajetória torna visível milhares de outras prováveis trajetórias negras que, infelizmente, permanecem invisíveis até hoje.

Referências:

[1] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. Pp. 26-27.

[2] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[3] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[4] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. Pp. 26-27.

[5] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. Pp. 26-27.

[6] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[7] Atual Parque Moinhos de Vento.

[8] Provavelmente, um Landau, carruagem de luxo de tração animal do início do século XX, produzido na cidade homônima na Alemanha.

[9] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[10] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[11] SANTOS, Irene (org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005. P. 38.

[12] SANTOS, Irene (org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005. P. 113.

[13] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. Pp. 26-27.

[14] FONSECA, Ricardo Franco da, e ROZANO, Mário. Jockey Club: Histórias de Porto Alegre. Porto Alegre: Nova Prova, 2005. P. 155.

[15] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. Pp. 26-27.

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