Fotografia da Travessa Angustura ou Beco do Leite na revista A Mascara de 6/2/1925. Hemeroteca do Museu de Comunicação social Hipólito José da Costa.

O Beco do Leite

Apesar de não mais existir – visto que o lugar por onde esse pequeno beco passava (só uma quadra de extensão! – o Beco do Leite representou um momento impressionante na minha trajetória de pesquisa. Isso por que ele foi fotografado antes de ser demolido, e ainda por cima, a qualidade da fotografia que chega até nós é relativamente boa.

Fotografia do Beco do Leite ou Travessa Angustura no Correio do Povo de 8/1/1925, ilustrando a coluna
Fotografia do Beco do Leite ou Travessa Angustura no Correio do Povo de 8/1/1925, ilustrando a coluna “Aspectos da Cidade”. Fotografia da autora. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Não a primeira fotografia… essa apareceu para mim na nota nada elogiosa de um exemplar do Correio do Povo[1] deplorando as condições do beco e regozijando-se pela sua subsequente demolição. De qualquer forma, é uma foto espetacular que me emocionou quando a vi: uma janelinha pequena (e em baixa resolução) que se abre para a Porto Alegre ainda colonial, com seus pesados casarões de beiral. Imediatamente peguei aquela preciosa imagem para estudar essa cidade desaparecida, fazendo croquis dela com lápis e nanquim como este abaixo:

Desenho de estudo com base na fotografia do Beco do Leite no Correio do Povo de 8/1/1925, feito a lápis e caneta nanquim sobre folha de sketchbook da autora, 2013.
Desenho de estudo com base na fotografia do Beco do Leite no Correio do Povo de 8/1/1925, feito a lápis e caneta nanquim sobre folha de sketchbook da autora, 2013.

Assim falava o jornalista na coluna Aspectos da Cidade[2]:

O casario da Travessa da Angustura, entre as ruas NOva e dos Andradas, que a muncipalidade começou a derrubar na semana passada

Intromettido bem no centro da cidade, o Becco da Angustura de há muito devera desapparecer, pelo que apresenta de mais desagradavel á vista. Estreito, constituido de cochicholos velhos fócos de enfermidade, sem ar, sem luz, sem um “que” de pittoresco, sem uma nota de tradição – a não ser (que ironia!) – a do nome que relembra a guerra com o Paraguay – não se sabe como foi se retraindo no misero aspecto, á medida que Porto Alegre foi se dilatando e modernisando. Das poucas cousas do passado é a que se impôz até agora com um “inexplicável direito”. Outras cousas mais toleraveis já se sumiram nas profundas [sic] do nada.

A suspeita agua das sargetas por ali passava, ás vezes em enxurradas. Fizeram-na esconder-se. Para isso, tiveram de preparar um sumidouro. Pavimentou-se a cimento o constringido trecho dessa ruella. Um tom novo numa velharia. Desde então que a picareta deveria ter entrado em scena, sem palliativo desse retoque, deitando abaixo todo o casario do Becco, dando-lhe a amplidão de uma rua, onde fossem construidos predios novos, irradiando á luz da vida.

É, finalmente, o que nos promette a administração municipal. Dentro em pouco, o Becco da Angustura já não existirá, como a ultima das viellas de Porto Alegre, refugio de males e de miserias.[3]

Numa segunda visita ao Museu Hipólito, encontrei a mesma fotografia em resolução melhor na revista ilustrada “A Máscara”, onde também ilustrava a cidade que se modernizava, e que anunciava que no lugar do beco seria construído o “Mercado das Flores”.

Fotografia da Travessa Angustura ou Beco do Leite na revista A Mascara de 6/2/1925. Hemeroteca do Museu de Comunicação social Hipólito José da Costa.
Fotografia da Travessa Angustura ou Beco do Leite na revista A Mascara de 6/2/1925. Hemeroteca do Museu de Comunicação social Hipólito José da Costa.

Não tenho notícia de que tenha sido realmente construído um “Mercado das Flores”, como a legenda da foto indica. No seu lugar foram  construídos prédios “modernos” da época, que depois foram sendo substituídos por outros. É possível que tenha sido na altura do que é hoje o Centro Cultural CEEE-Érico Veríssimo, na Rua dos Andradas. Quanto à fotografia, pergunto onde deve andar o seu original, se é que ainda existe, mas seria emocionante vê-lo. Mas vamos a um pouco da história desse lugarzinho que não existe mais:

Segundo Franco (1988), trata-se de “antigo beco que deixou de existir desde a década de vinte, ligando a Rua Gen. Andrade Neves com a Rua dos Andradas, na altura do atual prédio da Cia. Estadual de Energia Elétrica”[4]. Esta curta travessa da área central situava-se transversalmente sobre o espigão sobre o qual Porto Alegre se formou, fazendo com que se enquadrasse quase que perfeitamente no padrão das ruas travessas do urbanismo português. Contudo, ligava não duas ruas principais, mais uma rua principal (Rua da Praia) a uma rua secundária, a antiga Rua Nova (atual Rua General Andrade Neves).

Conforme Coruja (1983 [1881]), esse antigo beco teve muitas denominações, e, como outros deles examinados aqui, também esteve associado a personagens notáveis da vida urbana no século XIX:

Este beco apesar de estreito e curto passou por diversas transformações. Um dos seus antigos moradores, e talvez o mais antigo, foi João da Silva Ribeiro Lima, conhecido por João Barriga e João da Silva Barriguinha; pelo que o chamavam de Beco do Barriga; por sua morte puseram-lhe o nome de sua viúva, Beco de D. Ursula, e também – Beco do Lisboa, negociante que tinha sua loja na rua da Praia em frente ao beco; e posteriormente indo para ali morar o alfaiate Manoel José Leite na esquina fronteira à D. Ursula, ficou e permaneceu por muitos anos o nome de – Beco do Leite. Hoje, na distribuição que a edilidade fez das placas, tocou-lhe o bem merecido nome de Beco da Angustura. Convém aqui saber que João da Silva R. Lima e sua mulher D. Ursula eram os avós maternos do senador Florêncios e do Sr. Dr. Moura de Magalhães [grifo da pesquisadora].[5]

Interessante notar que ninguém menos do que um senador, e ainda por cima o senador que daria nome à Praça da Alfândega no início do século XX. Porém, quanto aos nomes citados, tem-se a confirmação de Achylles Porto Alegre: “[Travessa] Angustura: becco da Barriga, D. Ursula, do Lisbôa e do Leite, pessoas essas todas que alli moraram. Dura até hoje o de Leite – como recordação do alfaiate Manoel José Leite”.[6]

Fotografia do final do século XIX ou início do XX mostrando a Rua Nova, ou atual Andrade Neves, com a esquina do Beco do Leite. A entrada está indicada pela seta. Fonte: prati.com.br
Fotografia do final do século XIX ou início do XX mostrando a Rua Nova, ou atual Andrade Neves, com a esquina do Beco do Leite. A entrada está indicada pela seta. Fonte: prati.com.br

Entretando, como espaço marginalizado do antigo centro de Porto Alegre, o antigo beco do Leite não deixa de ter uma relação íntima com espaços de prestígio da vida urbana: embora não se encontre textualmente associado ao beco, o que por si só também é sintomático, vê-se pela planta cadastral de 1893 e por fotografia de finais do século XIX que o endereço do antigo Club dos Caçadores (Rua General Andrade Neves, nº 26) situava-se num casarão à esquina da Rua Andrade Neves com a antiga Travessa Angustura. A antiga casa de espetáculos é assim descrita na imprensa da época:

O Centro dos Caçadores, que é a mais procurada das casas de diversões da capital, tem concorrido muitissimo para a movimentação de nossa urbs, pois, sua numerosa freguezia alimenta a movimentação de um grande número de vehiculos. Esse maginifico cabaret, articiscamente montado com deslumbrante luxo, tendo uma excellente cosinha e um inexcedivel serviço de bebidas, fez, pela atracção das maiores celebridades da cançoneta internacional, da velha, monotona e dorminhoca cidade, que era Porto Alegre de antanho, uma city moderna, onde a elegancia, o luxo, e o gosto pela musica de Montmartre imperam.[7]

 

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Fotografia do Club dos Caçadores na edição comemorativa do Centenário da Independência da revista “A Mascara”, de 1922. Hemeroteca do Museu de Comunicação social Hipólito José da Costa.

Como não poderia deixar de ser, a referência a Montmartre alude à elegância, modernidade e cosmopolitismo francês que eram o paradigma e horizonte de civilização da época. Porém, como acontece até hoje nas cidades brasileiras, luxo e pobreza convivem lado a lado, vizinhos de esquina. No caso do Beco do Leite, nele se situavam construções condenadas pela modernidade de um lado, e, de outro, o auge da sua sofisticação num cassino frequentado pela elite da cidade e do campo. Hoje, o que era o antigo lugar da elegância da cidade já passou por ondas de degradação nas últimas décadas, mas guarda em alguns dos seus prédios e ruas o antigo charme de onde era o antigo Beco do Leite ou Travessa Angustura.

Em amarelo, área aproximada de onde dever ter se situado o Beco do Leite ou Travessa Angustura. Imagem do Google Maps editada pela autora, 2018.
Em amarelo, área aproximada de onde dever ter se situado o Beco do Leite ou Travessa Angustura. Imagem do Google Maps editada pela autora, 2018.

Referências:

[1] Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, consultada em 2013.

[2] A grafia original foi mantida.

[3]Correio do Povo, 01/02/1925. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.

[4]FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 39-40.

[5]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 114.

[6]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p.16.

[7]A Mascara, Número Comemorativo do Centenário da Independência (1922): “Centro dos Caçadores”. Acervo da hemeroteca do Museu de Comunicação de Porto Alegre Social Hipólito José da Costa.

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