Rua Sete de Setembro na virada do século XIX para o século XX. Fotografia de Virgílio Calegari (PESAVENTO, 1992, p. 67)

A sombria Rua Clara e o Beco dos Marinheiros

Localizada mais em direção à ponta da península, área onde viria a se instalar a Cadeia Pública, a antiga Rua Clara (atual Rua General João Manoel) posiciona-se tipicamente como travessa em relação às ruas principais (Duque de Caxias, Riachuelo e Andradas).

Segundo Coruja (1983 [1881]), a Rua Clara “[…] assim se chamou por antítese – Rua Clara a mais escura das ruas, pois se prestava a boas quedas na pedreira que havia na esquina da rua da Ponte”[1], e seu nome posterior, constante na planta de 1881, dá a pista para personagens de destaque da cidade associados ao logradouro: “o nome do General João Manoel, nascido na rua de Bragança, foi transferido para as placas das esquinas da rua Clara, e o do General Câmara, cuja família muitos anos residiu na rua Clara, foi transferido para a rua do Ouvidor [Beco da Garapa ou do João Inácio]”[2].

Contudo, deve o nome do seu trecho final, entre a Rua da Praia e a margem do Guaíba, à associação com outro tipo de personagem urbano. Segundo Porto Alegre (1940), a atual Rua General João Manoel “da rua Duque de Caxias á dos Andradas, chamou-se Clara e dahi para baixo becco dos Marinheiros”[3]. A esse respeito, Coruja (1983 [1881]), traz mais detalhes:

Quem da Rua Clara descesse para os lados do rio, passando da Rua da Praia para baixo, aí encontraria à esquerda um terreno quase devoluto [grifo da pesquisadora] a que por falta de outro nome denominavam – Beco da Rua Clara. Este terreno, até certo tempo composto de um marachão ou entulhos, e a que puseram um paredão que servia de cais onde desembarcavam marinheiros frequentadores de bodegas e freges [Dão aqui o nome de frege  a umas casas de fraca aparência que dão comida a operários e pessoas de poucas posses.] que aí se foram estabelecendo, foi por esse fato conhecido pelo nome de Beco dos Marinheiros.[4]

Rua Sete de Setembro na virada do século XIX para o século XX. Fotografia de Virgílio Calegari (PESAVENTO, 1992, p. 67)
Rua Sete de Setembro na virada do século XIX para o século XX. Fotografia de Virgílio Calegari (PESAVENTO, 1992, p. 67)

Ainda segundo Coruja (1983 [1881]), neste beco “[…] não se podia ir à noite por ser foco de desordens entre os ditos […]”[5], o que é consistente com o imaginário e as vivências associadas a tantos outros becos da cidade. Entretanto, o Beco dos Marinheiros, assim como outros próximos ao porto, desenvolveu-se a ponto de deixar nos primórdios da cidade sua má reputação. Coruja (1983 [1881]) relata que “este beco foi crescendo; estendeu-se para o lado do nascente; e aumentou tanto, que forma o que hoje se chama Rua Sete de Setembro (fig. 38), que, como se vê, é composta de belos e custosos edifícios.”[6]

Segundo Franco (1983), “no seu segmento inicial, à esquina da Rua 7 de Setembro, a Rua General João Manoel foi sede da usina elétrica da Cia. Fiat Lux, a primeira que teve a cidade.”[7]

Referências:

[1]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 17.

[2]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 20.

[3]PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. p. 14.

[4]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 98.

[5]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 112.

[6]CORUJA, Antônio Álvares Pereira. Antigualhas; reminiscências de Porto Alegre. Porto Alegre: Companhia União de Seguros Gerais, 1983. p. 98.

[7]FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. pp. 227-229.

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