A “praga do batuque” em Porto Alegre

Na edição de 20/1/1929, encontra-se a seguinte manchete entre as reportagens ilustradas do Correio do Povo:

Em diversos pontos da cidade, a praga transplantada do ‘batuque’ desperta queixas e exige providencias […]”[1]

Seguida de cabeçalhos que destacam partes da reportagem, a mesma é ilustrada com fotografias grandes dos locais de “batuque”, prática que é condenada no texto por ser barulhenta e impedir a vizinhança de descansar após um dia de trabalho.

Ainda que possa tentar aparentar um tom neutro, como no seguinte trecho,

É um culto e ninguem tem nada com as crenças do seu proximo, sejam ellas as melhores, ou as peores.

A verdade, porém, é que nas noites de ‘batuque’ é tal o ruido que se faz dentro a casa onde se pratica essa ‘religião’, que a vizinhança de muitos metros em redor, não póde conciliar o somno.

a reportagem claramente usa linguagem condenatória para se referir às “crenças do seu próximo”, especialmente quando fala delas como “praga transplantada” para Porto Alegre por “gente inculta e humilde”, e que termina por “infestar” alguns bairros da cidade.

Reportagem ilustrada do Correio do Povo de 20/1/1929, p. 8. Fotografia da pesquisadora. Acervo do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho, 2018.

Essa linguagem claramente negativa usada para descrever a presença dos locais de culto afro-brasileiros em Porto Alegre sinaliza um fenômeno muito mais amplo de uma desvalorização da cultura negra em geral no Brasil, que provavelmente pouco mudou desde aquele ano longínquo. As festas e práticas das comunidades negras não eram apenas vistas com desconfiança como também eram seguidamente alvo de repressão policial, destruição de terreiros e denúncia por parte de vizinhos.

Na década 1920, ainda vigia a crença no racismo científico[2], amplamente difundida não apenas entre as autoridades que detinham a administração da cidade mas também entre a população comum[3], que assim acreditavam que as populações de origem africana eram culturalmente inferiores, tendiam à prática de rituais ‘primitivos’ e ao crime, e portanto seriam um obstáculo à modernização no Brasil. Com esse discurso científico vigente, o que Foucault[4] chama de episteme de uma época, a discriminação era feita abertamente.

Finalmente, a reportagem traz dois aspectos interessantes: a localização de um dos batuques num “becco” do bairro Menino Deus, e menciona o “muito conhecido” “batuque do Príncipe” na rua Lopo Gonçalves, na Cidade Baixa[5]. Seria esse o famoso Príncipe Custódio? Caso seja o mesmo ilustre personagem da história de Porto Alegre, tem-se mais uma peça do quebra-cabeças: a fotografia, ainda que já pouco nítida, da entrada de sua residência.

“O famoso ‘batuque’ do Príncipe”. Detalhe da reportagem do Correio do Povo de 20/1/1929, p. 8.
Fotógrafo desconhecido.

Em diversos pontos da cidade, a praga transplantada do ‘batuque’ desperta queixas e exige providencias[6]

O-CO-CO-A! BO-A-E-A-BAU! OGUN! OGUN

Além desses gritos extranhos e cabalísticos, os ‘batuques’ de Porto Alegre impedem o somno da população com barulhentos tambores

As serenatas, que a policia prohibiu ha tanto tempo, eram bem menos incommodas que essa modalidade de feitiçaria.

Onde se localizam alguns dos mais irritantes ‘batuques’, contra cuja existencia se queixam amargamente os visinhos

O ‘batuque’…

A estranha fascinação que essa palavra exerce em certos espíritos menos cultos! Dir-se-ia que ella encerra o segredo do futuro, o mysterio dos destinos humanos.

Quantas pessoas buscam no ‘batuque’ a solução dos problemas da sua vida attribulada. Amores mal-correspondidos, máos negocios, enfermidades, desgostos íntimos, tudo o ‘batuque’ se propõe corrigir, tal aquellas famosas ‘pedras de cevar’ que servem apenas para ‘cevar’ os bolsos dos espertalhões que as vendem.

Não há muito, dizia-nos um amigo espirituoso:

– O ‘batuque’ só não cura unha encravada e cabellos brancos…

– E isso mesmo não sei si não cura… contrapoz outro, menos sceptico.

Mas… os incredulos…

ou melhor, os que não teem motivos para recorrer a essa modalidade de feitiçaria, ha muito veem reclamando contra a invasão crescente dos ‘batuques’ em determinadas zonas da cidade.

E, realmente, teem razão os incredulos. Porque nada mais desagradavel do que ter-se o somno interrompido depois de um dia de labor não raro extenuante. E é o que se verifica nas zonas infestadas pelo batuque, os quaes são habitados, geralmente, por pessoas que trabalham e precisam, portanto, á noite, de tranquilidade e silencio.

Ora, o ‘batuque’ não representa, apenas, uma pratica retrograda.

É um culto e ninguem tem nada com as crenças do seu proximo, sejam ellas as melhores, ou as peores.

A verdade, porém, é que nas noites de ‘batuque’ é tal o ruido que se faz dentro a casa onde se pratica essa ‘religião’, que a vizinhança de muitos metros em redor, não póde conciliar o somno.

Afinal, que é o ‘batuque’?

É a pergunta que occorre, naturalmente, a quantos ouvem falar dessa estranha pratica.

Pois bem – o ‘batuque’ é nada mais, nada menos que isto:

Em determinados dias da semana – segundas, sextas e domingos – reunem-se os credulos em casa de um ‘batuqueiro’ para a cerimonia singularissima.

Geralmente gente inculta e humilde.

Ás seis horas tem inicio a ‘festinha’, que elles consideram culto.

‘Ogun’, o santo predilecto é, então, durante toda a noite, invocado, ao mesmo passo que um homem – um preto – com um tambor entrre os joelhos, vae rythmando, com os dedos sobre a pelle do tambor, a dansa que em redor varias pessoas praticam. E gritos, e exhortações em lingua africana.

Mais tarde, sempre com o caracter de ‘sacrifício’ – vem a ceia que em algumas casas é opipara [sic] e que é ingerida, por alguns, com as mãos, isto é, sem talheres.

Até o romper do dia – o ‘programma’ é esse.

E durma-se…

…com um barulho destes! – dizia-nos, há dias, um morador de um bairro infestado pelos ‘batuques’, E accrescentava:

– Ha muito a policia, para tranquilidade do somno da população prohibia a serenata. Foi uma medida sympathica. É preciso, porém, não esquecer, que a serenata interrompia apenas e por momentos o somno de uma quadra. E o ‘batuque’ não deixa os habitantes de varias quadras conciliarem somno durante toda a noite!

Como veem os nossos leitores, o raciocínio é lógico.

Innumeras queixas

chegaram, nesse sentido, á nossa redacção. Dos mais diversos pontos da cidade vinham pessoas solicitar a nossa intervenção, afim de ver si era possivel a extincção desses incommodos ‘batuques’, que fazem mais mal á população com o rumor do seu estranho culto, do que com as ‘moambas’ e os ‘despachos’ que praticam.

Attendendo a essas solicitações, a nossa reportagem se poz em campo, conseguindo obter, num rapido gyro de automovel, as zonas mais infestadas por elles.

O Parthenon

está minado de casas de ‘batuqueiros’ e ‘batuqueiras’, sendo que só na rua Bôa Vista, naquelle arrabalde, há quatro funccionando regularmente.

“O batuque da rua Bella Vista”. Típico chalé de madeira que também se encontrava na Colônia Africana e Areal da Baroneza.
Detalhe da reportagem do Correio do Povo de 20/1/1929, p. 8.
Fotógrafo desconhecido.

No Menino Deus

também é considerável o numero de ‘batuques’. Além do da famosa ‘Mãe Santa’, no becco do Silveiro e de que nos occupamos quando das deligencias em torno do repugnante delicto do morro do Menino Deus, existo um outro, também naquelle becco, funcionando com regularidade.

Á hora em que hontem a nossa reportagem delle se approximou, de dentro do ‘chalet’ de madeira em que elle está installado, partia um ruido sendo muito caracteristico.

Acercamo-nos da janella e vimos, lá dentro, na sala, um preto a ensaiar para o ‘batuque’ de hoje, provavelmente.

A rua Lopo Gonçalves

possue dois. Um, do ‘Principe’, muito conhecido e outro pouco além.

Quando o nosso photographo batia uma chapa deste segundo, o ‘batuqueiro’ veio para a rua [encolerizado?].

Queria impedir a pho[togra]phia, em altos brados.

Mas não logrou o […] por que como [veem os] leitores, o [batuque em questão é um dos [nummeroros cli]chés de hoje.


“Um dos batuques da rua Lopo Gonçalves. Casa de porta e janella”. Detalhe da reportagem do Correio do Povo de 20/1/1929, p. 8. Fotógrafo desconhecido.

A Colonia Africana

está toda infestada pelos [‘ba]tuques’.

Mas, longa ser[ia] a […]ção dos ‘batuques’ [exis]tentes em Porto Alegre.

Em nossa proxima re[porta]gem, na qual daremos […] curiosos informes sobre [a] incommoda forma de [..]ria, apontaremos os […]iritam, justamente, os […] da população.”

Referências:

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco; o negro no imaginário das elites – século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HALL, Stuart (Org.). Representation: cultural representations and signifying practices. London: Sage Publications Inc., 1997.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1983.

NOGUEIRA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem. Sugestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. Tempo Social, revista de Sociologia da USP. Vol. 19, nr. 1, pp. 287-308. Novembro de 2006.

SEYFERTH, Giralda. Construindo a nação: Hierarquias raciais e o papel do racismo na política de Imigração e Colonização. In: Raça, Ciência e Sociedade. Rio, Editora Fiocruz, CCBB, 1996. pp. 41-58.


[1] Correio do Povo, 20/1/1929, p.8 . Hemeroteca do Arquivo Histórico Muncipal Moysés Vellinho, Porto Alegre.

[2] Ver, entre outros, Azevedo, 1987; Fanon, 1983; Nogueira, 2006; Seyferth, 1996.

[3] Sobre a discriminação racial entre as classes pobres de Porto Alegre no início do século XX, ver a tese de Marcus Vinícius Rosa, Além da invisibilidade: história social do racismo em Porto ALegre durante o pós-abolição (1884-1918). Universidade Estadual de Campinas, 2014.

[4] Apud Hall, 1997.

[5] A Cidade Baixa também era conhecida como território negro de Porto Alegre desde o século XIX, também referida em parte como Areal da Baroneza.

[6] A grafia original foi mantida.

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