Meias pretas ou saudades de um look

Durante toda minha pesquisa iconográfica sempre notei que, na passagem da década de 1910 para a de 1920, algumas mudanças sensíveis ocorreram na moda feminina. Muito embora eu já soubesse que a Primeira Guerra houvesse mudado radicalmente o modo de vestir das mulheres nas cidades européias e, por circulação de idéias e costumes, também nas brasileiras, um singelo artigo do jornal “Novidades”, de 1923, me chamou atenção pois trata das cores da moda.

O articulista desconhecido lamenta a moda das meias coloridas, elogiando as meias pretas como mais elegantes e modeladoras das pernas femininas. Observando diversas fotos dos anos imediatamente anterior, é fácil notar que as meias escuras pareciam mesmo predominar, dando um visual bem mais austero à silhueta feminina.

Mas os anos 1920 trariam, possivelmente na trilha do prestigioso Paul Poiret, as cores vibrantes para a moda das mulheres, e, com elas, também os adereços coloridos começavam a invadir as ruas de Porto Alegre na hora do footing[1].

Iribe: Les Robes de Paul Poiret, p. 27. Fonte: WikimediaCommons

Desolado, o articulista cita mesmo alguns pontos da cidade em que a moda nova seria perceptível:

 […] basta uma ligeira inspecção, mesmo feita pelo olhar distraido de algum melancolico frequentador do ponto de bondes, – nos escriptorios da Força e Luz, ou á frente do Cinema Central – para se vêr que já não ha quase meias pretas.[2]

Não satisfeito, o autor interroga uma “suprema autoridade”, no entanto já tendo alertado para a “incorrigivel volubilidade do sexo fraco”. Inconformado, ouve que “o que está em contacto com a pelle deve ser claro, fresco, luminoso”.

Estudo da pesquisadora no sketchbook, baseado em cena do filme Dr. Mabuse, 1922. Aquarela e bico de pena sobre papel, 2018.

Abaixo, a transcrição da coluna na grafia da época:

O gosto das bellas e… o bom gosto

A meia preta, de sêda, que era, até há pouco tempo, o encanto e o prestigio dos tornozellos femininos, está fora de moda. Não é de estranhar que morra de vez, dentro em breve, batida pela meia de côr. Neste caso, uma única hypothese haverá em que a mulher a possa admittir: a do luto rigoroso, ainda assim enquanto a incorrigivel volubilidade do sexo fraco – souvent femme varie­[3] – não determinar que mesmo nessa emergencia é de bom tom um vestido negro caindo sobre uma meia roxa, que é a cor da saudade e da dôr…

Como quer que seja, basta uma ligeira inspecção, mesmo feita pelo olhar distraido de algum melancolico frequentador do ponto de bondes, – nos escriptorios da Força e Luz, ou á frente do Cinema Central – para se vêr que já não ha quase meias pretas. E foi isto o que nos levou a um ligeiro inquerito jornalistico sobre o assumpto. Morta a meia preta, qual a côr preferida? Estariamos, porventura, na imminencia de uma ressureição da antiga meia branca, posta em voga pelas avós de hoje, quando ellas eram as moças chibantes [?] do seu tempo?

A suprema autoridade a quem recorremos, na ancia de transmittir ao publico uma opinião digna de acatamento, deu-nos sobre a materia todos os esclarecimentos. A meia preta, pensa ella, é uma heresia. O que está em contacto com a pelle deve ser claro, fresco, luminoso. De resto, o verdadeiro bom tom é usar meias que combinem com a côr do vestido.

– E se o vestido fôr preto?

– Neste caso, as meias devem ser sempre claras.

Assim, é na verdade uma guerra contra a meia preta o que o mundo feminino declara. O vestido preto é o único que não tem o direito de exigir meias da mesma côr… Há, além disso, um argumento de ordem economica: trata-se de uma meia mais fraca e nem por isso mais barata. A tinta preta enfraquece o tecido, tendo tambem a desvantagem de desbotar, sujando os pés, ao passo que as meias claras offerecem maior resistencia e, pois, têm maior durabilidade, sendo mais accesiveis á lavagem e á serzidura.

Resta saber se uma perna calçada em meia clara fica tão bem modelada e tão attraente como as que ostentam uma bella meia preta de seda transparente. Consultadas as mulheres, certamente teriamos a opinião geral de que as penas são o que vale e não o que representam as meias. Mas nem por isso deixaria de vir a proposito a citação de dois versos de Musset, que illustram o assumpto:

C’est mon avis qu’em somme um bas blanc bien tiré

Est le bonheur supreme…’.[4]

Em suma, gosto de aprender sobre como as cores foram sendo usadas na moda e na sua história, pois até mesmo algo tão simples como uma cor de meia pode revelar muito sobre as sensibilidades de um momento. O jornalista, claramente saudoso, não teve chance alguma contra a determinada entrevistada, que reafirmou, o que na verdade, provavelmente era uma manifestação de autonomia feminina. Vale lembrar que, na imprensa da época, muito se discutia sobre o feminismo e um dos seus efeitos foi não apenas a inserção maior das mulheres no mundo do trabalho e da esfera pública, mas também a opção por roupas práticas e leves, especialmente para o clima brasileiro.

[Autor desconhecido] “Novidades”, 1923, Ed0003, p. 3. Hemeroteca da BNDigital.


[1] Termo popular da virada do século XIX para o XX que descrevia o passeio social ao longo da Rua da Praia ao entardecer. Era onde as senhoras, senhores e senhoritas da sociedade saíam para verem e serem vistas.

[2] “Novidades”, 1923, Ed0003, p. 3. BNDigital. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=846554&pesq=

[3] “Frequentemente a mulher muda de idéia…” (tradução da pesquisadora)

[4] “É minha opinião que uma meia branca bem esticada é a felicidade suprema” (tradução da pesquisadora)

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