Horacina Corrêa: uma saudade boa de se sentir

Um nome que brilhava em 1936, em plena Época de Ouro do rádio, era Horacina Corrêa, a soberana dos programas de auditório. Dona de uma voz potente que dispensava, muitas vezes, o microfone, ela fazia sucesso. […] De Porto Alegre foi para o Rio, onde fez diversos shows e participou de filmes feitos pelos estúdios Cinédia e Atlântida.[1]

Horacina Corrêa em SANTOS, 2010, p. 92. Acervo Marcello Campos.

Neste fim de carnaval e Dia Internacional da Mulher, que personalidade melhor para homenagear do que Horacina Corrêa, estrela do carnaval e das rádios de Porto Alegre?

Embora saia um pouco do meu recorte temporal, pois Horacina nasce por volta de 1915[2] em Porto Alegre mas atua principalmente nos anos 1940 e 1950, encontrei a memória desta cantora de sambas e uma das pioneiras do rádio porto-alegrense e nacional em minhas pesquisas, mais precisamente na obra Colonos e Quilombolas: Memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre[3], organizada pela historiadora e fotógrafa Irene Santos. Este livro é imprescindível para, como diz o samba vencedor da Mangueira, quem quer ver “a história que a história não conta/ O avesso do mesmo lugar[4].

Mulher negra, Horacina é considerada “em sua terra natal foi uma das mais bem sucedidas intérpretes de Lupicínio Rodrigues”[5], este também um compositor originário da Ilhota, outro espaço tradicionalmente negro de Porto Alegre. Segundo o site Dicionário MPB[6], Horacina Corrêa foi influenciada por Carmem Miranda, que esteve em Porto Alegre para a inauguração da Rádio Sociedade Farroupilha, prefixo PRH-2, em 1935[7].

Ainda em sua cidade natal, Horacina “adorava as festas carnavalescas e de ser solista do bloco ‘Divertidos e Atravessados’, que durante o tríduo momesco reunia mais de 600 pessoas para o desfile triunfal na Rua da Praia […][8]”. Isso se confirma nas memórias de Dona Dolzira Padilha, antiga moradora da Colônia Africana, região que hoje compreende os bairros Bom Fim e Rio Branco. Em entrevista de 1991 presente na pesquisa da geógrafa Daniele Machado Vieira, tem-se o relato precioso do quotidiano de uma trabalhadora daquele espaço negro de Porto Alegre na década de 1930 durante o carnaval, em que a voz de Horacina conduzia os sambas na madrugada:

 “Dona Dolzira Padilha, nascida em 1910, foi moradora da Rua Esperança (atual Miguel Tostes) na Colônia Africana até pelo menos 1935. Seu marido, Euclides Padilha, era carnavalesco e saia no cordão ‘Divertidos e Atravessados’ pertencente à Cidade Baixa. Ele era músico e tocava diversos instrumentos: violino, trombone, bandolim.

[…]

Os blocos de carnaval mais importantes eram ‘Os Prediletos’ e ‘Os Turunas’, que se revezavam nos primeiros lugares dos concursos. Dona Dolzira relembra esta época […]:

‘[…] e tinha também  os ‘Turunas’ dessa minha grande amiga Horacina Correa, que eu falo com ela assim com uma dorzinha, porque ela era da Difusora, ela era da Farroupilha, ela era da Gaúcha, que foi de todas essas’[9].

Horacina Corrêa na Rádio Farroupilha. Revista do Globo, 12/02/1938, p. 27.

Horacina Correa era solista dos Turunas. Ela também cantava em diversas rádios. Sua carreira ganhou amplitude nacional e internacional, indo morar no Rio de Janeiro e  fazendo turnê pela Argentina.

Além de amiga, Dona Dolzira era grande fã de Horacina. Ela conta que por causa do trabalho tinha que acordar muito cedo e não conseguia sair para ver o bloco dos Turunas. Mas quando o bloco voltava, ela ouvia a voz de Horacina e não se aguentava. Levantava da cama e ia para o portão ver a Horacina e os Turunas passarem:

“Horacina Corrêa ao centro com o grupo dos Turunas. Acervo Ieda Vieira Foques”
SANTOS, 2010, p. 91.

‘Eu morava na Rua Esperança, mas eu não podia ver o cordão, esse Turuna saí, porque eu trabalhava numa fábrica de vime e a gente tinha que chegar na hora, quer dizer, eu tinha que me deitar cedo, né. O marido saia pro bloco e eu ia me deitá. Mas quando era seis horas eu não resistia, não resistia porque o cordão de volta, né 6h, 4h, da madrugada. Então quando ela vinha, uma voz que era assunto muito sério, sabe? A voz dela. Então ela cantava como é que eu vou canta…:

‘Ei-la seu coisada enfeza na batucada,

Ei-la seu coisada enfeza na batucada,

Pimenta do reino é preta, mas faz um pirão gostoso…’

Ai, quando essa mulher gritava isso, eu tinha que me levantá, ah eu tinha que me levantá, tinha que vê ela passá. Então ela passou muito bonita um ano, foi em [19]31, isso eu me lembro bem, ela toda de cossaco, era cor de rosa e branco a fantasia deles e essa mulher vinha cantando, mas então era um sucesso, agarravam ela numa cadeira, traziam ela na cadeira […] ela era Horacina Correa. E eu era louca por ela, eu ficava no portão […]’[10].”

Horacina Corrêa na Rádio Farroupilha após seu regresso do Rio de Janeiro. Revista do Globo, 09/10/1937, p. 15.

Se o carnaval e também as bandas de jazz projetavam artistas negros no início do século XX, o desenvolvimento de um dos mais importantes meios de comunicação e entretenimento de massa potencializou ainda mais as carreiras de cantoras como Horacina. Segundo Silvia Abreu,

“Com o surgimento do rádio, um promissor mercado de trabalho se abre, oferecendo aos artistas negros possibilidades de mostrarem seu talento. O período conhecido como Época de Ouro do Rádio, compreendido entre o início dos anos 30 e o final dos 50, foi o mais importante, destacando-se nomes como os cantores Bruno thomas, Zé Carlos, as cantoras Horacina Corrêa, Carmen Del Campo, Dalila, Branca de Neve, Maria Helena Andrade, Lourdes Rodrigues e Zilah Machado.”[11]

“Horacina Corrêa e a Orquestra Paulo Coelho. Acervo A. Canto.” SANTOS, 2010, p. 91.

De fato, Horacina vai atuar como cantora em quase todas as rádios de Porto Alegre, de onde irá para o Rio de Janeiro, então capital da República. Também faz turnês pela Argentina e pela Europa. Conforme Marcus Vinicius Rosa,

“[…] a fama de Horacina ultrapassou em muito os dias dedicados a Momo. No mesmo ano, o Jazz Paulo Coelho viajou para a Argentina, a fim de tocar na Rádio Municipal de Buenos Aires. Entre os músicos, seguiram os dois famosos foliões da Colônia Africana: Marino e Horacina. No Rio de Janeiro, em 1947, Horacina atuou no filme ‘Este mundo é um pandeiro’, ao lado de artistas como Oscarito, Nelson Gonçalves e Emilinha Borba. Na década de 1940, ela deixou para trás o carnaval de Porto Alegre. Conforme salientou Hardy Vedana, ela ‘conheceu a glória em Paris’ e tornou-se ‘proprietária de um hotel na capital do Egito.”[12]

“Em 1941 homenagem a Carmem Miranda. Acervo A. Canto.” SANTOS, 2010, p. 92.

Com tanto reconhecimento e sucesso, a cantora gravou vários sambas que marcaram a época: “seu primeiro disco foi lançado em outubro de 1945, gravou diversos 78 rotações e LPs com músicas de Noel Rosa e Ary Barroso. Horacina cantou na Rádio Mayrink Veiga e se apresentou em quase todas as emissoras de nossa cidade”[13].

O seu casamento com Alberto Martiniano, realizado no próprio estúdio da Rádio Farroupilha, foi destaque em reportagem fotográfica:

“Horacina casou com Oscar Corrêa, funcionário da Biblioteca Pública e integrante do Jazz Cruzeiro em 9.10.1936. A cerimônia do casamento foi transmitida ao vivo pela PRH-3 Rádio Farroupilha.” SANTOS, 2010, p. 93.

Horacina veio para o Rio trazida por Walter Pinto, empresário teatral de grande visão artística, mas não sem antes contrair núpcias com Alberto Martiniano, numa das mais badaladas cerimônias religiosas realizadas em Porto Alegre. O casamento foi realizado no estúdio da Rádio Farroupilha com a solenidade acompanhada pela grande orquestra da emissora.[14]

“Horacina Corrêa com colegas da orquestra.” SANTOS, 2010, p. 91.

Como o cinema também ganhava força no Brasil, Horacina Corrêa estrelou também em produções da época, exercendo seu talento de cantora e atriz:

Participou de diversos filmes brasileiros, podemos lembrar ‘Este Mundo é Um Pandeiro’ onde aparecia cantando de Ary Barroso o samba ‘No Tabuleiro da Bahiana’. Tomou parte também no filme ‘É com Esse Que eu Vou’, cantando ‘Salve Ogum’ bonita composição de Pernambuco e Mário Rossi e gravado por Dircinha Batista. Participou também de ‘O Mundo se Diverte’, outra película muito aplaudida.[15]

Não consegui, até o momento, levantar mais informações com fontes claras sobre Horacina Corrêa, o que indica que, possivelmente, ainda há muito a pesquisar sobre a sua vida. Contudo, o historiador Marcus Vinicius Rosa investiga no capítulo III de sua dissertação[16] a trajetória desta surpreendente cantora. Como diz o texto do livro de Irene Santos, “Horacina é uma saudade boa de se sentir”[17]. Dela e de tantas outras mulheres, em especial mulheres negras, é fundamental recuperar a memória e a obra, pois elas contam histórias diferentes do nosso passado como país. Elas nos dizem que outras histórias de vida são possíveis, e que mulheres também construíram a história e a cultura brasileiras. Que possamos reencontrar mais mulheres como Horacina, que trazem “saudades boas de se sentir” para as meninas e mulheres do futuro também.

Referências:

FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras comerciais. Canoas: Ed. da ULBRA, 2002. Pp. 125-126.

LUCKOW, Fabiane Behling. Chanteuses e Cabarés: a performance musical como mediadora dos discursos de gênero na Porto Alegre do início do século XX. Dissertação de Mestrado, IA-UFRGS. Porto Alegre, 2011. P. 52.

ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Quando Vargas caiu no samba: um estudo sobre os significados do carnaval e as relações sociais estabelecidas entre os poderes públicos, a imprensa e os grupos de foliões em Porto Alegre durante as décadas de 1930 e 1940. Dissertação de Mestrado. IFCH-PPGHist, UFRGS, 2008.

SANTOS, Irene (org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005.

SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010.

VIEIRA, Daniele Machado. Territórios negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): Geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Dissertação de Mestrado, POSGEA-UFRGS. Porto Alegre: [s.n], 2017.


[1] ABREU, Silvia. Cantando prá subir. In: SANTOS, Irene (org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005. P. 154.

[2] LUCKOW, Fabiane Behling. Chanteuses e Cabarés: a performance musical como mediadora dos discursos de gênero na Porto Alegre do início do século XX. Dissertação de Mestrado, IA-UFRGS. Porto Alegre, 2011. P. 52.

[3] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010.

[4] Histórias para ninar gente grande, samba-enredo da Mangueira, escolha vencedora do carnaval de 2019.

[5] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

[6] http://dicionariompb.com.br/horacina-correia/dados-artisticos

[7] FERRARETTO, Luiz Artur. Rádio no Rio Grande do Sul (anos 20, 30 e 40): dos pioneiros às emissoras comerciais. Canoas: Ed. da ULBRA, 2002. Pp. 125-126.

[8] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

[9] PADILHA, Dolzira. Entrevistas sobre os carnavais de Porto Alegre. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 13/02/1991. Entrevistadores: Flávio Krawczyk e Wilson Azambuja Vieira Filho. P. 2.

[10] PADILHA, Dolzira. Entrevistas sobre os carnavais de Porto Alegre. Porto Alegre: Secretaria Municipal de Cultura, 13/02/1991. Entrevistadores: Flávio Krawczyk e Wilson Azambuja Vieira Filho. P. 2. In: VIEIRA, Daniele Machado. Territórios negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): Geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Dissertação de Mestrado, POSGEA-UFRGS. Porto Alegre: [s.n], 2017. Pp. 139-141.

[11] ABREU, Silvia. Cantando prá subir. In: SANTOS, Irene (org.). Negro em Preto e Branco: história fotográfica da população negra de Porto Alegre. Porto Alegre: Do Autor, 2005. Pp. 153-154.

[12] ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Quando Vargas caiu no samba: um estudo sobre os significados do carnaval e as relações sociais estabelecidas entre os poderes públicos, a imprensa e os grupos de foliões em Porto Alegre durante as décadas de 1930 e 1940. Dissertação de Mestrado. IFCH-PPGHist, UFRGS, 2008. Pp. 133-134.

[13] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

[14] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

[15] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

[16] ROSA, Marcus Vinicius de Freitas. Quando Vargas caiu no samba: um estudo sobre os significados do carnaval e as relações sociais estabelecidas entre os poderes públicos, a imprensa e os grupos de foliões em Porto Alegre durante as décadas de 1930 e 1940. Dissertação de Mestrado. IFCH-PPGHist, UFRGS, 2008.

[17] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010. P. 92.

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