“Arranha-céos” de Porto Alegre… em 1929!

Como pesquisadora da história de Porto Alegre, esta reportagem fotográfica sobre como a evolução arquitetônica e urbana da cidade como era vista em 1929 é fascinante.

Nela, pode-se perceber a sensibilidade e o senso de modernidade daquela época, referenciando coisas que já me eram conhecidas só que com outro nome. Por exemplo, o “gosto germânico” é o que se considera hoje como estilo arquitetônico eclético ou historicista, em Porto Alegre fortemente influenciado pelo arquiteto alemão Theo Wiederspahn, aliás autor do projeto das duas obras aqui exemplificadas. Possivelmente daí o nome do estilo.

Por outro lado, o “estilo yankee” ou “americano” era o dado aos prédios mais altos, então considerados “arranha-céus” com seus quatro ou seis andares! Até meados no século XX, Porto Alegre era uma cidade de construções predominantemente baixas, com um, dois ou três pavimentos, muito diferente do que se tem hoje.  Naturalmente, o nome “yankee” ou “americano” refere-se ao fato de, comparativamente, já terem sido construídos, em Nova York, prédios como o Flatiron Building, em 1903, com então impressionantes 22 andares.

Uma surpresa foram definitivamente as casas coloniais “quase subterrâneas”, construídas distantes do alinhamento do terreno, contrariamente ao típico modo colonial de ocupar o lote e configurar as ruas diretamente pelas fachadas das casas. E uma curiosidade: como já diz o jornalista de 1929, muitas casas coloniais se escondem sob transformações feitas para atender às exigências de posturas municipais ou para atualizarem seu estilo… Quantas delas terão permanecido ainda hoje no centro da cidade? Aposto que algumas resistem, discretas, disfarçadas de modernas…

Correio do Povo, 17/03/1929, p. 7. Hemeroteca do AHMMV. Fotografia da pesquisadora.

“A história da cidade na evolução de suas construcções[1]

 “Tres são as phases por que passou Porto Alegre: — a que se caracterisa pelo gosto colonial, a que se caracterisa pelo gosto germanico e a actual, que se caracterisa pelo gosto yankee

Evocação de alguns aspectos que constituíram a physiognomia inconfundível dessas tres etapas da vida da capital do Estado

A cidade nasceu na zona compreendida, hoje, pelo gazometro, antiga praça da Harmonia e Alto da Bronze. Aquelle trecho é o berço de Porto Alegre.

Por esse tempo a capital do Estado – a ‘metropole do Rio Grande – era Viamão.

Porto Alegre balbuciava as suas primeiras palavras – ‘gatinhava’…

Das suas primeiras casas, algumas ainda existem.

São construções pequenas, acanhadas, obedecendo todas ao gosto colonial.

Beiraes simples, jacaré[2], janellas de guilhotina.

Batida pelas lufadas ásperas do vento sul e do minuano, aquella zona da cidade apresenta uma curiosa reminiscencia nas casas do tempo. Á porta da rua, pouco acima do trinco, que então ficava do lado de dentro, ainda hoje conservam um orifício que dá exactamente para a introdução de uma mão.

É que no inverno, o vento gelado que vinha do Guahyba não permittia ficasse [sic] uma pessoa a bater á porta e á espera de que a abrissem.

E a medida então posta em pratica foi a da abertura daquelle orifício, que permittia ao visitante abrir por si a porta da rua.

Nessa zona da cidade, porém, conservam-se outras curiosas recordações dos primeiros tempos.

As casas

Quasi subterraneas

por exemplo, são typicas e não terão por certo escapado aos que conhecem aquelle trecho urbano. Foram construidas por traz do passeio, numa depressão do terreno. Quem as vê do passeio opposto tem a impressão que estão soterradas, pois só o telhado se mostra.

A nossa reportagem photographica fixou duas dessas casas antigas – á rua do Arvoredo[3] e á rua da Bahia[4], para conservar os seus primitivos nomes.

A direcção

que a cidade tomou foi naturalmente a única que existia – a collina.

Antes, porém, de subir, ella veiu contornando a eminencia, pela zona que mais tarde seria a rua dos Andradas – por esse tempo o Guahyba vinha até ali – e a rua da Varzinha. Só depois de edificadas essas ruas, a collina começou a encher-se de casas. E vieram as ruas – da Egreja, da Ponte, etc. Em ambas essas ruas ainda se encontram muitas casas coloniaes.

Modificadas, naturalmente, umas por exigencias da Municipalidade, outras para rendimento.

A praça do Portão

Quando a cidade alcançou a praça do Portão, já era um nucleo consideravel.

Onde se encontra hoje o quartel do 7º, estava localisado o portão da cidade, o qual se fechava ao primeiro toque de silencio.

A illuminação então era de azeite e só utilisada em noites sem lua.

Para se ter idéia da extensão de Porto Alegre daquella época basta saber que a Santa Casa foi localizada onde ainda hoje se encontra para estar sufficientemente afastada do centro…

A nova edificação

de Porto Alegre, quer dizer, a edificação que foge ao colonial é muito recente, pois, como é fácil observar, toda a chamada cidade-baixa conserva, embora modificados, innumeros predios primitivos, ao gosto dos nossos antepassados.

Pode-se dizer que a nova edificação de Porto Alegre marca uma phase decisiva na sua vida de cidade.

Com as primeiras casas modernas – e o perimetro já era, então, consideravel – a capital do Estado começou a ser, realmente – Cidade.

A rua da Independencia começava a ser habitada e a ter lindas vivendas e os bondes de burro, os ‘caixas de phosphoros’ viviam seus ultimos momentos.

Bem examinada essa evolução, póde se affirmar a cidade de Porto Alegre – a cidade – cidade – conta menos de trinta annos.

O caes

Não há ainda vinte annos talvez e o Guahyba vinha até os fundos da Praça da Alfandega[5], que tinha então, dois kioskes.

O logar hoje occupado pelos automoveis, entre o Correio e a Delegacia[6] era praia.

Existia ali uma escada em volta da qual atracavam os innumeros botes pra transporte de passageiros e passeios no Guahyba.

A construcção do cáes deu logar a uma phase caracteristica da evolução da Cidade.

Gosto germanico

Com a construcção do cáes começaram a surgir, no coração da cidade, edificios grandes e alterosos.

Na sua maioria, com cupolas e capacetes, de sabor accentuadamente germanico.

São desse tempo o Banco da Provincia, a Delegacia, o Correio e tantos outros.

Já a cidade sentia que necessitava de luz, de calçamento. Quer dizer, começava a ter consciencia da sua condição de cidade.

Varios cinemas funccionavam todas as noites e enchiam a rua da Praia do ruido argentino das suas campainhas, que se punham a funcionar, antes das sessões ao fim de cada parte do film e entre a primeira e a segunda sessão.


“A phase do gosto germanico” [Fotógrafo desconhecido.]
À esquerda, o atual MARGS, originalmente Delegacia Fiscal, e à direita, o atual Memorial do Rio Grande do Sul. Originalmente, era o prédio dos Correios e Telégrafos.

O arranha-ceos

Porto Alegre entra, agora, na sua phase vertiginosa – a phase do arranha-céos.

Modesto, por ora, pois que não excede de seis andares.

Mas já com a ‘aplomb’ e a imponencia do arranha-céo.

Em breve surgirão os de dez, doze, vinte andares.

A cidade então, em logar de seis mil automoveis, terá quinze mil e todas suas obras estarão concluidas.

Seremos, tambem, metropole…

Recapitulando:

Pode-se, assim, dividir em tres phases, a evolução de Porto Alegre.

A primeira – colonial.

A segunda – gosto germanico.

A terceira – gosto americano.”

[Autor desconhecido]

Referências:

Correio do Povo, 17/03/1929, p. 7. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho de Porto Alegre. Consultado em 30/11/2018.

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre; Ed. da Universidade/UFRGS, 1988.

SOUZA, Célia Ferraz de. Plano Geral de Melhoramentos de Porto Alegre: o plano que orientou a modernização da cidade. 2. Edição revisada e ampliada. – Porto Alegre: Armazém Digital, 2010.


[1] A grafia original foi mantida.

[2] Possivelmente cano de folha-de-flandres ou ferro fundido para escoamento das águas da chuva descarregadas pelo telhado.

[3] Atual Rua Fernando Machado.

[4] Segundo Sérgio da Costa Franco (1988, p. 55), “antiga denominação do primeiro segmento da atual Rua Demétrio Ribeiro, entre a costa do rio e a rua General Vasco Alves”.

[5] Os aterros na margem norte começaram ainda no século XIX, e a obra de retificação do Porto estendeu-se de 1913 a 1921, na gestão de José Montaury (ver Souza, 2010, p. 80).

[6] Respectivamente, os atuais Memorial do Rio Grande do Sul e MARGS, construídos no início da década de 1910.

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