“Modas 1905-1921” – entre nostalgia e alívio?

“Aquella silhueta de talho fino e apertado, os quadris salientes, os seios bem altos e comprimidos… que contraste com a linha actual, direita, quasi estatuaria, o corpo livre do collete!”[1]

Estudo de personagem e figurino para o volume 1 de Beco do Rosário, em momentos da história que se desenrolam por volta de 1910. Desenho feito pela pesquisadora usando lápis, bico de pena, nanquim e aquarela sobre papel, 2014.

A moda marca visualmente uma época, caracterizando não apenas as linhas e as silhouetas de um momento histórico como também suas sociabilidades e sensibilidades. Hoje em dia, por exemplo, o guarda-roupa feminino apresenta uma variedade tão grande de opções de figurinos que vão do mais elegante e rigoroso ao mais despojado e confortável, que talvez como nunca antes esteja tão distante das lindas porém sofridas silhouetas do início do século XX.

Aqui, o curioso é encontrar numa revista de 1921 um testemunho da mudança radical na moda feminina que se deu após a I Guerra Mundial. Como já apontei aqui antes, a necessidade de braços femininos na indústria armamentista e pesada, em função da transferência massiva dos homens para os front, fez com que grandes cabeleiras, saias estreitas e compridas, e chapéus enormes se tornassem não apenas pouco práticos como até perigosas entre os maquinários. Assim, os vestidos tornaram-se práticos, confortáveis, de linhas simples e também mais curtos. O mesmo caminho seguiram os sapatos e os cabelos, sem esquecer os chapéus.

No artigo reproduzido abaixo, escrito pela colaboradora Judith para a revista A Máscara[2], nota-se como a diferença entre as duas épocas da moda comparadas pela autora – ela mesmo aparentemente uma especialista cuja formação começou na primeira década do século – já era sensível. Entre nostalgia e alívio, Judith nos brinda com um relato precioso de como a mulher de 1921 via a moda de 1905:

Montagem mostrando as modas de 1905 e 1921 na revista A Mascara, Ano IV, nr. IV, 09-04-1921, p36. Acervo da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Setor Rio Grande do Sul. Fotografia da pesquisadora.

As modas 1905-1921

 “Em meu atelier, recordei-me do início da minha ardua tarefa de aprendizagem no meu paiz tão longinquo.

Fui momentaneamente transportada ao lindo atelier da ‘Maison Serra’ uma das casas de moda mais preferidas pela élite portugueza. Toda a fidalguia frequentava os seus lindos salões de venda, e como eu, bem pequena, sentia-me bem, quando tinha occasião de contemplar tanta distincção e nobreza!

Como eram nobres as fidalgas do tempo da velha monarchia!

Lembrando-me das modas desse tempo, procurei a minha velha collecção de figurinos. Deparou-se-me um do anno de 1905, ou sejam passados desasseis annos. Nesse tempo precisamente ainda não tinha iniciado a minha aprendizagem, mas poucos annos tardaram; por isso, recordo-me perfeitamente da execução das modas que apresento, apezar de passados desasseis annos!

Desasseis annos… palavras magicas que fazem surgir uma visão deliciosa de juventude em flor de belleza, ao mesmo tempo a delicadeza da adolescencia e o desabrochar da mulher!

Desasseis annos, que são, durante tantos seculos? Menos que um momento.

Entretanto, não julgem que um centenario passou entre as modas de outr’ora e as de hoje!

Quantos caprichos, elegancias, invencções as mais exquisitas, algumas até loucas, mas sempre seductoras, não tem passado pelos figurinos durante desasseis primaveras, para satisfazer as elegantes nos seus prazeres, emoções e caprichos?

Passando os olhos sobre os figurinos desse tempo, é um mundo que os separa de nós.

Aquella silhueta de talho fino e apertado, os quadris salientes, os seios bem altos e comprimidos… que contraste com a linha actual, direita, quasi estatuaria, o corpo livre do collete[3]! O modo rápido de andar, é fácil na actualidade, imagine-se com os vestidos compridos de 1905, comprimidos não sómente na cauda, mas tambem adeante, mais compridas ainda de que a senhora que os vestia. Para andar, era preciso forçar o pé, empurrando-os adeante com um movimento onde se revelava a distincção duma verdadeira elegante – movimento lindo – mas muito incommodo!

Texto original n’A Mascara, Ano IV, nr. IV, 09-04-1921, p37. Acervo da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Setor Rio Grande do Sul. Fotografia da pesquisadora.

Os chapéos! oh! os chapéos! Eis a mudança mais assombrosa. Por um milagre de equilibrio sustinham-se na cabeça, altos, encarapitados sobre a aureola de puffes ondulados os grandes chapéos que pareciam edificios de complicada construcção…[4] As pequenas toques com a sua estreita copa sobre a qual sobrepunham os dapeados em tule, filó, etc. – então novidade – tanto maior era o seu encanto, quanto menos possível fosse enterrado na cabeça, apparecendo assim por completo, os bellos cabellos… o que hoje é motivo para algumas saudades…

Os chapéos de hoje, são completamente entrados na cabeça, sendo quase impossivel de saber se os cabellos são pretos, castanhos ou louros… entretanto, quantos lindos cabellos elles encobrem o que é francamente um dos grandes encantos femininos!

E os forros que acompanhavam os vestidos, com os seus folhos volumosos de mousseline de seda, que appareciam debaixo do vestido compridissimo, quase sempre difficil de levantar, verdadeiramente impraticaveis! Que lhes fizemos? Completamente evaporados, desappareceram! Estão reduzidos ao minimo e o que resta é bem bonito mas muito intimo, pois não se vem mais, a saia de baixo, existe, mas chega sómente ao joelho, tendo a saia do vestido a acompanha-la só um pouco mais abaixo…

O incommodativo collete, desappareceu completamente, por nada mais ter que occultar, os decotes são tão baixos, que nada mais permittem senão um leve e delicado tulle quase invisivel que sustem o busto; tudo era ao inverso dos nossos gostos actuaes, e entretanto, as mulheres eram da mesma forma deliciosas…

Judith”

Abaixo, alguns exemplos da moda da primeira década do século XX em Porto Alegre, em fotografias de Virgílio Calegari…

…e alguns exemplos da moda de 1921 em desenhos e fotografias da revista A Máscara:

Referências:


[1] A Mascara, Ano IV, nr. IV, 09-04-1921, p37. Acervo da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Setor Rio Grande do Sul. A grafia original foi mantida.

[2] A Mascara, Ano IV, nr. IV, 09-04-1921, p37. Acervo da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, Setor Rio Grande do Sul. A grafia original foi mantida.

[3] Aqui, provavelmente a autora se refere ao antigo espartilho. Esta peça do guarda-roupa feminino conferia ao torso uma postura reta e rígida, moldando a cintura e elevanto os seios. Não raro constrangia a respiração e acarretava outras complicações do funcionamento dos órgãos internos.

[4] A respeito do tamanho dos chapéus  femininos dos primeiros anos do século XX, Rafael Guimaraens, em seu livro 20 relatos insólitos de Porto Alegre (Ed. Libretos, 2017, p. 15), afirma que os proprietários do Teatro Coliseu tiveram de criar uma chapelaria para as mulheres em virtude das reclamações da platéia que tinha sua visão dos filmes obstruída pelos imensos chapéus.

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