O “bizarro e fino” desenhista da Porto Alegre de 1920

Quando pela primeira vez comecei a folear as edições da revista A Máscara de 1918 e 1920, na sala de consulta da hemeroteca do museu Hipólito José da Costa, não apenas as fotografias nítidas e abundantes daquele tempo já tão longínquo me fascinaram, mas também os desenhos que ilustravam a publicação.

Entre eles, é muito comum encontrarmos desenhos de artistas estrangeiros, clichés[1] genéricos adquiridos pelas publicações para, paradoxalmente, ilustrar crônicas sociais, editoriais, resenhas e outros escritos sobre acontecimentos e costumes locais. Porém, quando me deparei com este desenho, cujo estilo e desenvoltura nada deixa a dever aos estrangeiros, percebi que, além da data, o artista registrou o lugar de sua feitura: Porto Alegre!

American Baar. Atentar para a legenda P. Alegre – maio de 1919 abaixo do título. Revista A Mascara, 15/12/1924. Hemeroteca do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, Porto Alegre. Fotografia da pesquisadora.

Então tínhamos um artista dessa qualidade atuando na imprensa da cidade há um século, e eu não o conhecia?

Na época fiquei curiosa, mas como minha dissertação de mestrado não tratava do tema, fotografei a ilustração e ao longo do tempo, consultando as revistas, fui encontrando outras. De fato, terminei descobrindo que José Rasgado Filho, ou Júnior, cujo pseudônimo Stelius sugere uma formação clássica tanto no seu estilo quanto na sua educação, teve trabalhos publicados na imprensa ilustrada de Porto Alegre nas décadas de 1910, 1920 e 1930.

José Rasgado Filho na Revista do Globo, nº 2, p. 14.
Fotografia da Revista do Globo nº 2, p. 11, em que figura José Rasgado Filho. Lê-se: Sentados: dr. Vargas Netto, dr. João Carlos Machado, dr. Eurico Rodrigues, André Carrazzoni, dr. João Soares, Isolino Leal e João Sant’Anna. – Em pé: dr. Luiz Vergara, dr. Abdos de Mello, dr. Miranda Netto, dr. Ruben Machado Rosa, dr. Oscar Daudt, Theodemiro Testes, J. M. Cavalcanti, Jetro Saraiva, J. Rasgado.

Contudo, pouco consegui apurar até o momento a respeito desse artista cuja marca são desenhos de personagens urbanos, elegantes e de ar misterioso. Discretos, inseridos em contextos sofisticados da cidade como nas ilustrações da revista A Máscara, o estilo desse artista me chamou atenção pelo domínio da figura humana, da luz e sombra e pela fluidez de suas linhas. Seres longilíneos, de olhares penetrantes e enigmáticos, ora envoltos numa atmosfera totalmente afeita àquilo que à época (décadas de 1910-1930) se considerava como a modernidade urbana, como ruas elegantes e iluminadas, palcos de cabarés e bares, ora dramaticamente isolados numa rua pouco iluminada, abandonados à própria sorte, ou ainda contra suntuosas paisagens naturais.

Curiosa, fui procurar por indícios de sua vida em Porto Alegre na imprensa. No jornal A Federação[2], o nome José Rasgado aparece diversas vezes e em diversos tempos, especulando-se que o José C. Rasgado que é mencionado como um dos “juízes de pesagem” em 1899 possa se tratar do pai de José Rasgado Filho[3]. Anos mais tarde, em 1909, o jornal indica que um José Rasgado Filho estudou no Gymnasio Anchieta[4], e, em 1917[5], José C. Rasgado Filho teria sido aprovado nos exames de admissão da Escola Médico-Cirurgica de Porto Alegre, o que indica que talvez o artista tenha tentado, originalmente, uma formação médica.

De qualquer modo, fato é que seus desenhos começam a aparecer nas revistas ilustradas de Porto Alegre desde seus primeiros tempos. Conforme o crítico de arte Carlos Scarinci, José Rasgado Filho já publicava em 1913 na Revista Kodak, informação também trazida pela historiadora da arte Neiva Maria Fonseca Bohns, que escreve em sua tese que em “1912 – É lançada a Revista Kodak. Entre seus colaboradores estavam Florêncio Ygartua e o ilustrador José Rasgado Filho (Stelius)”[6].

Últimas folhas. Revista Kodak, Ano II, nr. 84, 30/05/1914, p. 5. Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, fotografia da pesquisadora.

Já naquela época, a qualidade de seus trabalhos fez com que Stelius fosse destacado até na pujante imprensa da então capital federal. Na carioca Fon-Fon, de 1º de janeiro de 1915, um cronista não identificado escreve:

Chama-se A Rua a pequena revista que me dá a alegria de recordar o Pedro Velho. A Rua appareceu, a 18 do mez de novembro [de 1914] na Capital do Rio Grande do Sul. Toda de trabalhos de gente nóva, entre ella José Rasgado, Stelius, – mais, muito mais do que um menino que promette.[7]

De fato, o prestígio do artista é atestado anos depois na revista Máscara, que confirma a publicação dos seus trabalhos no Rio de Janeiro:

É já bastante conhecido, não só nos nossos circulos artisticos, como de toda a gente que se interessa pelas coisas de Arte, o nome de José Rasgado Filho, que com o suggestivo pseudonymo de Stelius tem publicado, não só em revistas desta Capital, como do Rio, desenhos magnificos, onde a originalidade de concepção se allia a uma virtuosidade admiravel. Os trabalhos de Stelius são inconfundiveis, já pelos assumptos finos e bizarros, já pela execução sóbria, correcta e pessoalissima. No presente numero, ‘Mascara’ publica um estudo de cabeça executado por este artista culto, e não podia deixar de prestar uma justa homenagem ao seu talento vigoroso.[8]

Estudo de cabeça. A Mascara, BNDigital, 1921, Ed00046, p98.

A respeito do estilo e da formação de José Rasgado Filho, Carlos Scarinci considera que ele era um artista

[…]  cujo traço revela um sentido expressionista, dada a acentuação patética ou melodramática que imprime a seus temas. Autodidata, embora deva suspeitar-se que em algum momento tenha passado pelos ateliês locais[9], sua formação percorreu os manuais de desenho e livros artísticos que, na época, com facilidade se importavam da Europa. Apesar de sua produção poder ser constatada desde 1913, nas páginas da revista ‘Kodak’, trata-se de um artista episódico, pois não era possível ainda um exercício realmente profissional em arte. José Rasgado trabalhava no setor bancário, sendo na verdade um diletante, muito embora mostrasse muito talento.[10]

De fato, a profissão de artista não garantia a sobrevivência, e, assim como hoje, já naqueles tempos muitos dos ilustradores cujos desenhos e pinturas figuram nas páginas das revistas ilustradas também se viam obrigados a exercer outras profissões afim de garantir o seu sustento. Nesse sentido, José Rasgado parecer ter tomado o rumo mais seguro: segundo Neiva Maria Bohns, ele “[…] nunca se decidiu pela carreira artística, preferindo dedicar o seu tempo à atividade bancária, em que chegou a cargos de direção”[11]. Assim, dedicava-se eventualmente à sua arte e integralmente à sua profissão diurna.

Boa parte de seu universo temático, contudo, aponta para a vida noturna e urbana de seu tempo, o que leva a pensar que, provavelmente, José Rasgado tenha sido um frequentador da noite porto-alegrense. Entre seus amigos próximos, contava-se ninguém menos que Francis Pelichek, o pintor tcheco que chegara em Porto Alegre em 1922 e atuava também como professor do então Instituto Livre de Belas Artes[12].

Recorte da revista A Máscara nos diários de Francis Pelichek. Arquivo Histórico do Instituto de Artes da UFRGS.

Pelichek era um notório boêmio, e traz em seus diários um recorte de revista da fotografia do amigo. É possível que os dois tenham participado dos círculos intelectuais da cidade, compostos por jornalistas, músicos, poetas, artistas e figuras célebres da cultura local nos restaurantes, cabarés e cafés de Porto Alegre.

Contudo, José Rasgado e Pelichek diferiam bastante em suas expressões. As ilustrações do primeiro, frequentemente aparentando terem sido executadas com técnica seca (grafite) ao invés do tradicional nanquim usado comumente nos desenhos de imprensa, mostra uma elaboração de volumes, tecidos e sombras que lhes conferem uma precisão e delicadeza invulgares. Ao contrário de Pelichek e outros artistas de imprensa de sua época, que simplificavam e deformavam linhas no sentido de caricaturá-las, Stelius parecia procurar manter na pintura simbolista dos primeiros anos do século XX sua principal referência estilística.

Assim como seu colega Pelichek, José Rasgado Filho também colaborou com o Correio do Povo, conforme afirma Neiva Maria Fonseca Bohns:

Segundo o crítico Carlos Scarinci[13], o melhor de sua produção pode ser acompanhado nas páginas dominicais do Correio do Povo, por curto período, a partir de 1929.[14]

Assim como naquele jornal, José Rasgado Filho também aparece nas páginas da Revista do Globo em suas primeiras edições. Para esta revista, ilustrou capas e páginas internas, sendo mencionado em uma crônica do pintor e crítico Ângelo Guido, em 1929:

José Rasgado é outro espírito interessante do meio artístico de Porto Alegre, um dos valores reaes da nova geração, também estylista do traço, autor de poucos mas valiosos trabalhos que lhe revelam um temperamento muito seu e marcadamente moderno.

Bem diverso de Sotéro Cosme, com mais tendencias a acentuar volumes, o seu desenho não tem o senso decorativo e a finura de estylização deste último, mas é mais plástico, mais próximo à pintura, propriamente, do que á ilustração.[15]

Posteriormente, as menções feitas a José Rasgado Filho no jornal A Federação relacionam o seu nome às associações de tênis e à prática deste esporte, bem como a da esgrima. Até o momento, contudo, não foi possível confirmar se se trata do artista ou de um homônimo.

De qualquer maneira, é muito importante conhecer e trazer de volta à memória da cidade artistas como José Rasgado Filho, ou Stelius, que se formaram artisticamente e atuaram em Porto Alegre, muito embora pouco tenha conseguido levantar a respeito de sua biografia até aqui. Ele é o testemunho de que, há mais de cem anos, tínhamos artistas de alta qualidade e sensibilidade, e que retratavam os seus tempos e os costumes de sua cidade de maneira a fascinar ainda os olhares da contemporaneidade. Além de ser exímio artista, de estilo único, Stelius tecia também narrativas de Porto Alegre que remetem aos seus espaços, personagens e costumes.

Personagem inspirado nos desenhos de Stelius no segundo volume de Beco do Rosário. Desenho da pesquisadora.

[1] Desenhos, charges, ilustrações de moda e outras, comercializadas internacionalmente e compradas por publicações brasileiras para ilustrar crônicas de costumes, reportagens e outras matérias. Eram provavelmente produzidas por artistas estadunidenses e europeus, e podiam repetir-se de edição para edição das revistas e jornais.

[2] Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[3] N’A Federação, Ed000230, p. 3, 07.10.1899. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[4] N’A Federação, Ed000282, p. 4, 06.12.1909. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[5] N’A Federação, Ed000155, p. 1, 05.07.1917. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[6] BOHNS, 2005, p. 362.

[7] Fon-Fon, 1915, Ed0001, p. 24; 01-01-1915 Anno IX Número 1. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[8] A Mascara, 1921, Ed00046, p. 121, 30.03.1921. Anno III, Número XLVI. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[9] “O artista em entrevista pessoal ao autor negou ter tido qualquer aprendizado além do exercício autodidata em arte.” (nas Referências originais do autor).

[10] SCARINCI, 1980, p. 7.

[11][11] BOHNS, 2005, p. 125.

[12] O atual Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

[13] SCARINCI, 1982, p. 30.

[14] BOHNS, 2005. P. 125.

[15] Revista do Globo, nº 2, p. 14.

Referências:

BOHNS, Neiva Maria Fonseca. Continente Improvável:Artes Visuais no Rio Grande do Sul do final do século XIX a meados do século XX. Tese de Doutorado em Artes Visuais_ – Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. P. 362.

Fon-Fon, 1915, Ed0001, p. 24; 01-01-1915 Anno IX Número 1. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

SCARINCI, Carlos. A gravura contemporânea no Rio Grande do Sul – I : 1900 a 1960. Porto Alegre, RS: Museu de Arte do Rio Grande do Sul, 1980. P. 7.

SCARINCI, Carlos. A gravura no Rio Grande do Sul: 1900-1980. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. (Documenta, 10), p. 30.

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