Testes de papéis: Canson Héritage Satinado 300g

Agora que estou na etapa de colorização das páginas do volume 2 do Beco do Rosário, e, assim como foi com o volume 1, pinto diretamente com aquarela sobre a página original, tirei da gaveta um projeto que há muito estava na agenda: testar diferentes papéis de aquarela em páginas de quadrinhos.

Para isto, estou utilizando páginas que havia desenhado da história em quadrinhos Une génération française, em que trabalhei durante 2016 e 2017 em parceria com o roteirista francês Thierry Gloris, e que foi publicado em 2017 e 2018 pelas Éditions Soleil.

Como já havia feito as páginas do volume 1 de Beco do Rosário, em 2015, em alguns papéis diferentes (Canson Desenho 224g, Fabriano 5 350g, Hahnemühle), mas já pensando em aquarelá-las, havia me deparado com alguns problemas:

Esboçar, apagar e arte-finalizar uma página de vários quadros sobre o mesmo papel que se vai aquarelar desgasta o papel.

Não são todos os papéis ideiais para aquarela que chegam até o momento de aquarelar em boa forma. Isso porque percebi que muitos dos melhores papéis para aquarela, notadamente os 100% algodão (e consequentemente os mais caros) são muito delicados. Delicados mesmo, a ponto de qualquer passada de borracha, por mais suave que seja, já levantar as fibras da superfície de forma a alterar o resultado final. Ou seja, são papéis que, imagino, são feitos para serem apenas minimamente manipulados antes de receber a pintura. Ou seja, nem pensar em esboçar, apagar, reforçar o lápis, arte-finalizar antes de pintar, como é preciso fazer com uma página de quadrinhos.

Nesses casos, o melhor é desenhar numa folha de desenho comum (como um papel sulfite 90g, por exemplo) e usar uma mesa de luz para redesenhar a página num papel de aquarela.

Muitos artistas fazem isso. Eu mesma cheguei nas mil experimentações das páginas do volume 1, comprei mesa de luz de LED maravilhosa porém confesso que perco a espontaneidade do desenho quando tenho que fazer isso. E redesenhar uma página inteira…

Não.

A solução? Testar todos os papéis que eu puder para ver qual aguenta melhor o processo de desenho e arte-final até a colorização. Então, ao ler as observações abaixo, é preciso ter em mente que o papel utilizado passou pelas especificidades que o desenho de uma página de quadrinhos requer antes de ser aquarelado, fim para o qual provavelmente não foi concebido.

Um deles foi o Canson Héritage 300g Satinado.

Este é um papel dos mais caros disponíveis no mercado brasileiro, pois é importado e confeccionado em 100% com fibras de algodão, o que permite uma melhor conservação e absorção da aquarela. Mesmo sendo a marca Canson conhecida no Brasil por linhas de produtos mais baratos, como é o Canson Desenho 224g, por exemplo, esta fábrica tem produtos profissionais que não são fabricados aqui, como a linha Héritage.

Como desenho com bico de pena, o papel satinado, ou seja, totalmente liso desta linha me pareceu interessante, embora já ao primeiro toque me parecesse muito delicado. Na etapa do desenho a lápis, já percebi que era um papel muito macio, sendo difícil de definir as linhas mesmo na técnica seca.

A página desenhada a lápis. A maciez do papel já se vê no traço.
Une génération française T6, p. 31. Roteiro: Thierry Gloris. Desenho: Ana Luiza Koehler. Publicado por Éditions Soleil, 2017-2018.

Já na etapa do bico de pena, não apresentou maiores problemas, tendo sido relativamente fácil de obter uma linha precisa sem que houvesse uma infiltração da tinta (usei a Talens Indian Ink, que é mais resinosa e evita o efeito de feathering).

A página arte-finalizada com bico de pena.
Une génération française T6, p. 31. Roteiro: Thierry Gloris. Desenho: Ana Luiza Koehler. Publicado por Éditions Soleil, 2017-2018.

Contudo, na etapa da aquarela, a primeira mancha que fiz num canto da página já me deu pistas de como o papel ia se comportar:

Muita absorção. A tinta úmida era um verde bem mais escuro.

Ou seja, o papel é muito absorvente. Muito mesmo, e aqui, depois de todas as etapas de desenho, parece ter se tornado absorvente demais, a ponto de prejudicar o controle da cor e da mancha. O que acontece quando um papel é excessivamente absorvente?

  1. Ele “puxa” a tinta rápido demais para suas camadas mais profundas, não dando tempo para abrir luzes com pincel limpo quando ainda está úmido;
  2. Isso também torna difícil de fazer bordas suaves, ou os famosos dégradés;
  3. Ele “puxa” o pigmento para dentro, fazendo com que a cor resultante depois de seca seja bem diferente da cor úmida: no caso, bem mais clara e esmaecida.

Ora, isso já complica muito o trabalho de colorização. Assim, muitas das cores que podem ser vistas na página final abaixo não eram exatamente as que eu havia programado, especialmente os vermelhos e marrons.

A página colorizada.
Une génération française T6, p. 31. Roteiro: Thierry Gloris. Desenho: Ana Luiza Koehler. Publicado por Éditions Soleil, 2017-2018.

Também por ser muito absorvente, a mancha tende a extravasar em alguns pontos, especialmente sob a fita crepe que uso para isolar as calhas (espaços em branco entre os quadros). Dentro do quadro, ela tende a ficar borrada, o que pode ser uma vantagem se se quer um efeito mais suavizado nas cores.

Detalhe da infiltração na calha entre os quadros, que estava isolada com fita crepe.
Une génération française T6, p. 31. Roteiro: Thierry Gloris. Desenho: Ana Luiza Koehler. Publicado por Éditions Soleil, 2017-2018.

Aliás, na hora de tirar as fitas, é bom ter bastante cuidado, pois, como com a maioria dos papéis 100% algodão, ela tende a rasgar a superfície.

Creio que é um papel bom, especialmente se se quer uma colorização bem suave e em tons mais claros. A alta absorção dificulta fazer os tons mais escuros (especialmente nas sombras de oclusão), pois, como disse acima, o pigmento parece ser “puxado” para as fibras mais internas devido à porosidade do papel, concentrando-se menos na superfície. Abaixo, pode-se ver alguns quadros em mais detalhes para observar isto:

Ainda assim, o resultado final é interessante. Não é um papel fácil de trabalhar, exige que nos acostumemos a uma absorção muito rápida da tinta e suas consequências, mas se usado com cuidado pode ter resultados bons, desde que se planeje conforme o estilo de pintura que se quer.

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