“Vehiculos imprestaveis em circulação”

O trânsito em Porto Alegre, pelo jeito, nunca foi fácil. Nesta reportagem fotográfica do jornal Correio do Povo, de 5 de janeiro de 1929, temos o relato de um acidente entre um ônibus – então o meio de transporte coletivo que servia as áreas da cidade ainda não servidas por linhas de bonde – e um bonde da Carris.

Mesmo que, à época, a cidade tenha sido bem menor do que é hoje, não é difícil imaginar acidentes como estes acontecendo num momento em que a malha viária ainda se adaptava à crescente quantidade de carros e aos modernos meios de transporte coletivo. Naquele já distante 1929, tanto o Beco do Rosário (atual Avenida Otávio Rocha) quanto a Rua General Paranhos (que continha o famoso Beco do Poço) estavam em pleno processo de alargamento, o que incluía desaterros e demolições. Tudo, principalmente, para facilitar o trânsito de veículos particulares e de transporte coletivo.

Aqui, o desconhecido jornalista aproveita para tecer condenações ao poder público municipal que, segundo ele, não toma medidas para tirar de circulação veículos que, como o ônibus de número 5049, letra J, não se achavam em condições de trafegar. Hoje, Porto Alegre conta com concessionárias privadas de transporte público, cujos ônibus servem a maioria das linhas que percorrem a cidade diariamente. Aparentemente, o ônibus em questão era também um veículo privado, mas não fica claro em que regime de serviço com a municipalidade. De qualquer maneira, o problema da falta de manutenção de ônibus não parece ter se resolvido desde aquele tempo…

As consequencias dos vehiculos imprestaveis em circulação[1]

Á rua do Parque, verificou-se, hontem á tarde, violenta collisão de vehiculos

O omnibus letra J n. 5049, arrebentando, inesperadamente, a barra da direcção, desgovernou, indo chocar-se contre um bond da Carris

Reportagem sobre o acidente entre o ônibus e o bonde. Correio do Povo, 05/01/1929, p. 5. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho. Fotografia da pesquisadora.

“Os meios de transporte que ora existem em Porto Alegre representam um serviço inutil, perigoso e até fatidico.

Moroso por excellencia, não obedece a horarios, sujeitando a inconvenientes demoras aos que delle se servem.

Além disso, o estado dos vehiculos, quer sejam bondes ou omnibus, na sua maioria, se acham quasi imprestaveis, reclamando uma urgante substituição, pois alguns delles já não se prestam mais para reparos.

Conquanto essa verdade seja observada por todos, injustificadamente e com o maior risco para a população, consente-se que os proprietarios de taes meios de transporte continuem a pol-os em circulação, como se não tivessemos medidas legaes para reprimir esses abusos.

Os effeitos dessas causas, perfeitamente evitaveis, repetem-se com surpreendente frequencia mas o poder fiscalisador parece que se não quer movimentar para fazer com que termine essa situação.

Contemporisando, deixa a cidade á merce dos vehiculos velhos, quebrados, sujos e remendados, debaixo de um aspecto irritante.

Por outro lado, assiste-se, o sacrifício do povo, victimado aqui e ali por desastres lamentaveis, que envolvem perdas de vidas e augmentam o numero de invalidos.

Ha pouco tempo, a Municipalidade, considerando a deorganisação do serviço de omnibus, baixou um regulamento á proposito, prohibindo, entre outras cousas de real alcance, a circulação de vehiculos imprestaveis.

Esse regulamento, que se não nos enganamos, entrou em vigor no dia 1º de outubro, não produziu, até agora, qualquer benefício, pois continua tudo como dantes.

E a prova mais cabal disso é o accidente que, ainda hontem se verificou na rua do Parque[2], do qual sairam feridas oito pessoas.

Esse accidente resultou de um violento choque entre um omnibus e um bonde, mas foi motivado, unicamente pelo estado deploravel em que se encontrava o material do primeiro daquelles vehiculos, como a seguir passamos a narrar:

Ás 16,25 horas, o omnibus 5049, letra J, guiado pelo chauffeur Julio Kuba, vinha do fim da linha de S. João, conduzindo regular numero de passageiros, em direcção ao centro da cidade, quando, ao chegar á rua do Parque, começou a acelerar a marcha, para vencer mais depressa a distancia.

Esse omnibus, que faz parelha com muitos desengonçados que trafegam em differentes linhas, aos impulsos da velocidade, trepidava em extremo vencendo difficilmente os obstaculos do pessimo calçamento da rua do Parque.

Fotografias do acidente, por um fotógrafo desconhecido. Correio do Povo, 05/01/1929, p. 5. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal de Porto Alegre Moysés Vellinho. Fotografia da pesquisadora.

Assim nesse jogo ameaçador, o omnibus n. 5049 trafegou quasi toda aquella via publica, mas, ao chegar proximo á esquina da Voluntarios da Patria, não resistiu ao serviço, desgovernando em zigue-zagues, precipitadamente.

O seu chauffeur, Julio Kuba, percebendo o perigo, esforçou-se para evitar o desastre iminente, movimentando, immediatamente, as travas.

Essa sua iniciativa, entretanto, não deu resultado, p[or] que logo se constatou que a barra da direcção havia se partido, forçando o vehiculo ao completo desgoverno.

Em consequencia disso, o omnibus n. 5049 avançou mais um pouco, ao léo em grande velocidade, indo chocar-se, violentamente, quasi de frente contra o bonde da Carris n. 38, letra J que, no momento, [s]caira, de surpreza, da rua Voluntarios da Patria para a do Parque.

Com [o] baque, a parte dianteira do omnibus ficou completamente inutilisada, ao passo que os passageiros, arrebatandos pela collisão, eram atirados em diversas direcções, debaixo de enorme balburdia.

Verificou-se, então, que en[tr]e as pessoas envolvidas no desastre, se achavam feridas as seguintes: José Gus, 20 annos, solteiro, residente á rua Santanna n. 522, com contusões e escoriações na região obcraneana esquerda; David Drago, 17 annos, residente á rua Ernesto da Fontoura n. 727, com a fractura da tíbia esquerda e escoriações em ambas as pernas; Cezar Grampa, 44 annos, residente á rua Jeronymo Coelho n. 140, com escoriações em ambas as pernas; Willy Blanck, 28 annos, residente á rua Barão de Santo Angelo 101, com escoriações na perna direita; Camillo Filips, 31 annos, casado, residente á Avenida Rio […]

[…]

Tambem esteve presente, o dr. Leovegildo de Paiva, chefe do trafego da Carris, que, depois de desimpedido o transito, ordenou o prosseguimento da viagem do bonde letra J n. 38, visto não caber a minima culpa do desastre ao motorneiro desse vehiculo.”

Autor desconhecido.

Referências:

Correio do Povo, 05/01/1929, p. 5. Hemeroteca do Arquivo Histórico Municipal Moysés Vellinho. Consultado em 30/11/2018.


[1] Transcrição na grafia original e fotografias do jornal feitas pela pesquisadora.

[2] Segundo Sérgio da Costa Franco, em seu Guia Histórico de Porto Alegre (Ed. da Universidade/UFRGS, 1988, p. 309), a rua do Parque é uma “antiga rua do Bairro São Geraldo. Começa na Voluntários da Pátria e termina na Rua Conde de Porto Alegre”.

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