O Areal da Baronesa

Na minha história em quadrinhos, busco nos becos os espaços historicamente negros do espaço mais central da Porto Alegre da virada do século XIX para o XX, mas não chego a falar diretamente de um que é talvez o mais antigo deles: o Areal da Baronesa.

Quem procura pelos territórios negros da antiga Porto Alegre logo se depara com esse nome. A origem dele está na antiga chácara da Baronesa de Gravataí, no que hoje é a Cidade Baixa, cujo solar pode-se ver numa aquarela[1] do viajante alemão H. R. Wendroth:


Aquarela de Wendroth “Porto Alegre vom Lazareth gesehen”, ou “Porto Alegre vista do Hospital (Santa Casa de Misericórdia)”, ca. 1852. Ao fundo, junto à praia, vê-se o solar da Baronesa de Gravataí.

No livro Colonos e Quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre, da historiadora e fotógrafa Irene Santos, encontramos um relato detalhado dos personagens que deram origem ao nome tradicional da área:

João Batista da Silva Pereira e sua esposa Maria Emília Pereira eram donos de uma grande extensão de terra, em que se destacava uma mansão, localizada onde hoje está o prédio da Fundação Pão dos Pobres, no bairro Cidade Baixa. Não eram nobres e nem sempre foram ricos. João Batista era português e chegou pobre a Porto Alegre por volta de 1823. Para sobreviver montou um pequeno estaleiro e deu início à construção de barcos para a navegação fluvial. O negócio prosperou, e o acesso à sociedade porto-alegrense também.

Ao casar com Maria Emília, de tradicional família açoriana, João Batista já estava rico, e presenteou a mulher com a mansão, que se tornou um lugar de recepções festivas e políticas. O título de barão veio das mãos de Dom Pedro II, em reconhecimento ao tratamento recebido: quando passaram por Porto Alegre em 1845, o imperador e a imperatriz Teresa Cristina ficaram hospedados na mansão do casal Pereira.

O título de nobreza só fortaleceu os negócios e, com o passar do tempo, João Batista foi adquirindo lotes e mais lotes de terra nos arredores, formando uma grande chácara, conhecida como Areal da Baronesa.[2]

Resto do muro da mansão da Baronesa de Gravatahy em fotografia de Irene Santos. Fonte: SANTOS, 2010, p. 24.

Contudo, um ano depois, o infortúnio deixou a baronesa viúva, e esta não conseguiu manter o estaleiro do marido. Pior, sobreveio um incêndio que arrasou a mansão da família…

Segundo Sergio da Costa Franco,

Depois que o grande solar se incendiou, a Baronesa resolveu parcelar sua chácara e vendê-la em lotes, o que foi ocifialmente aprovado pela Câmara Municipal em 12/2/1879. Sem nenhum melhoramento urbano, e sujeita, ademais, a eventuais alagamentos, essa zona se conservou por longos anos como local de moradia de famílias pobres, com raras construções de melhor qualidade.[3]


Planta de Porto Alegre de Henri Breton, 1881 (Mapoteca do IHGRS). Em amarelo, a área aproximada do Areal da Baronesa (edição da pesquisadora).

Entretanto, Mattos aponta uma contradição entre as datas de parcelamento do Areal da Baronesa e a notícia do incêndio do palacete:

[…] a Baronesa teria decidido parcelar e vender a chácara, depois de um incêndio no seu palacete, uma suntuosa edificaçãoi localizada onde hoje fica a Fundação Pão dos Pobres; Porém o incêndio o referido prédio é noticiado pelo jornal ‘A Federação’ apenas em 09/janeiro/1899, contradizendo o sinistro antes do parcelamento da área, visto que na época da notícia inclusive já faziam 11 anos do falecimento da Baronesa.[4]

De qualquer forma, a área que hoje corresponde a uma parte antiga e importante da Cidade Baixa já era descrita por Achylles Porto Alegre como um refúgio da violência e brutalidade do sistema escravista para os africanos traficados para a cidade, em meados do século XIX:

Aquelle sitio, alli, á praia de Bellas, onde está hoje o quartel do 2º batalhão da Brigada Militar, era, há cincoenta annos um matagal cerradissimo onde os ‘negros fugidos’ iam esconder-se de seus implacaveis e desumanos senhores – que, quando os conseguiam apanhar, com o auxílio do ‘capitão do matto’, os retalhavam a vergalho até lhes arrancar, como couro e o sangue, a alma do corpo.

Os pobres escravos, que se revoltavam contra a tyrannia do verdugo, seu dono, procuravam de preferencia aquelle logar para esconderijo, porque a mattaria era espessa, e elles encontravam alli, para alimentar-se, o araçá, a cereja, a pitanga, o maracujá, o joá, o ananaz, e tantas outras fructas silvestres que o bom Deus semeou a mãos cheias na terra para regalar a gulodice dos pobres diabos, que não podem entrar nas casas elegantes, onde ellas se vendem.

De resto, a um passo, ficava a praia, com a lympha crystallina para lhes mitigar a sede.

Hoje, esse velho logar tem o nome religioso de S. João Baptista, por que trocou o título nobiliarchico de ‘Areal da Baroneza’.

Antigamente assim se chamava por ter alli existido o palacete da baroneza de Gravatahy […][5].

Tendo assim sido marcado pela pobreza e abandono, e sempre sob a ameaça das frequentes enchentes do Riacho (o atual Arroio Dilúvio, canalizado), o Areal da Baroneza ficou no imaginário popular da época como um espaço de criminalidade e conflitos. Conforme Achylles Porto Alegre,

O espirito popular, sempre cheio de argucia e maldade, tambem este logarejo de ‘Banda Oriental’, pelas frequentes desordens que alli se davam, principalmente no becco da Preta, que era um dos seus tantos corredores escusos. […][6]

Difícil não notar a referência ao becco da Preta, pelo nome já estigmatizado de beco associado à cor da personagem que lhe deu o nome, cuja identidade já é perdida no tempo…

Mapa do Areal da Baronesa e outros territórios negros de Porto Alegre, por Daniele Machado Vieira. Fonte: VIEIRA, 2017, p. 101.

Da mesma forma, Kersting (1998) sinaliza que o próprio nome Areal da Baronesa, poderia ter carregado o mesmo teor irônico em sua denominação. O termo “arraial” era usado para designar porções bucólicas em volta da cidade, de vida pacata e predominantemente rural, e geralmente associados a etnias européias – portugueses (Menino Deus), Navegantes (Alemães) – também imigrantes. O Areal, contudo era associado pela imprensa da época à criminalidade, anomia e imoralidade, palco de badernas, assassinatos e comportamentos absolutamente indesejados pela ordem social burguesa que impunha um decoro civilizado à cidade. Além disso,

O Areal da Baronesa deve seu nome tanto à Baronesa de Gravataí […], quanto a grande quantidade de areia que o fluxo do Riacho, responsável pelos grandes alagamentos da área, depositava nas proximidades da sua foz com o Guaíba. Esse fato deve ter exaltado os gozadores da época […][7].


Mapa do Areal da Baronesa por Daniele Machado Vieira sobre planta de Porto Alegre de 1906. Fonte: VIEIRA, 2017, p. 102.

Longe dos trajetos de bonde e do progresso dos serviços públicos, aqueles terrenos alagadiços e insalubres – o que, afinal, restava à população negra e excluída ocupar – além de tudo recebiam a ironia do nome.

A geógrafa Daniele Machado Vieira recolheu relatos orais sobre o Areal da Baronesa, como o da Adão Alves de Oliveira, “seu Lelé”, que viveu no território nos anos 1940, nos quais a presença da areia se faz sentir:

Era ‘um areião’, cheio de avenidas (pátio com peças individuais, contíguas, com banheiro e tanque coletivos, onde residiam várias famílias) […][8]

Atualmente, o antigo Areal da Baronesa é reconhecido como uma porção histórica de Porto Alegre, e é onde está situado o Largo Zumbi dos Palmares, homenageando o personagem histórico num dos pontos de referência de um bairro de ocupação tradicionalmente negra. Da mesma forma, é no coração da antiga chácara da Baronesa de Gravataí que se situa o atual Quilombo do Areal, mais precisamente a rua Luiz Guaranha, um espaço de resistência da comunidade negra, que também contribui para a preservação do patrimônio e da história da cidade.


Foto de satélite de Porto Alegre na contemporaneidade (Google Maps). Em amarelo, a área aproximada do antigo Areal da Baronesa (edição da pesquisadora).

Detalhe de Porto Alegre na contemporaneidade (Google Maps) mostrando a área descrita por Franco (1988) como sendo a da chácara da Baronesa de Gravataí. Atentar para a av. Luiz Guaranha, atual “Quilombo do Areal”.

Referências:

FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. Pp. 61-62.

KERSTING, Eduardo. Indícios em representações: denominações em torno da Colônia Africana.Porto Alegre: Revista Anos 90, n. 9, Julho de 1998, pp. 150-164.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Os sete pecados da capital. São Paulo: Hucitec, 2008.

PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940.

Rio Grande do Sul em 1852. Aquarelas de Herrmann Rudolf Wendroth. Administração Amaral de Souza. Depto. de Cultura da Secretaria da Cultura, Desportos e Turismo. Porto Alegre: Riocell, 1982.

SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre: [s.n.], 2010.

VIEIRA, D. M. Territórios negros em Porto Alegre/RS (1800-1970): Geografia histórica da presença negra no espaço urbano. Porto Alegre: Dissertação de Mestrado POSGEA-UFRGS, 2017.


[1] Rio Grande do Sul em 1852. Aquarelas de Herrmann Rudolf Wendroth. Administração Amaral de Souza. Depto. de Cultura da Secretaria da Cultura, Desportos e Turismo. Porto Alegre: Riocell, 1982. P. 98.

[2] SANTOS, Irene (org.). Colonos e quilombolas: memória fotográfica das colônias africanas de Porto Alegre. Porto Alegre:

[3] FRANCO, Sérgio da Costa. Porto Alegre: guia histórico. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1988. Pp. 61-62.

[4] Mattos, 2000, p. 77.

[5] PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. P. 42.

[6] PORTO ALEGRE, Achylles. História popular de Porto Alegre. Edição organizada por Deusino Varela para as comemorações do bicentenário da cidade e officialisada pela Prefeitura Municipal. Porto Alegre, 1940. P. 42.

[7] KERSTING, Eduardo. Indícios em representações: denominações em torno da Colônia Africana. Porto Alegre: Revista Anos 90, n. 9, Julho de 1998, pp. 153-164.

[8] VIEIRA, 2017, p. 30.

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