Otto Wiedemann

No momento do grande boom da imprensa ilustrada, do final do século XIX e primeiras décadas do século XX, Porto Alegre desenvolve uma rica tradição de publicações ilustradas, como as revistas Kodak, A Máscara, Kosmos, e Revista do Globo. Naturalmente, muitos dos desenhos e ilustrações que figuravam nestas publicações eram imagens compradas sob a forma de clichés de outros veículos de imprensa de grandes centros brasileiros como Rio de Janeiro e São Paulo, ou mesmo do exterior, como Nova York ou Paris. Porém, a grande demanda por ilustrações e desenhos de imprensa fez com que muitos artistas amadores atuassem nessa área, entre eles o porto-alegrense Otto Wiedemann.

Foto de Otto Wiedemann na revista A Mascara, edição 48, 1919, p. 24. Hemeroteca da BNDigital.

Eminentemente caricaturista na revista A Máscara entre os anos de 1918 e 1921[1], Otto assinava seus desenhos como Itag ou por vezes Otto. O crítico de arte Carlos Scarinci assim o descreve:

Na ‘Máscara’ são abundantes as caricaturas de Itag (Otto Wiedemann), que foi seu primeiro diretor artístico e cujo desenho se caracteriza pelo corte geométrico da figura e seu preenchimento por padrões repetitivos também geométricos, o que já mostra certa assimilação de elementos da arte da vanguarda européia, aceitos é claro sob o signo do humor e auridos, talvez, de revistas européias ou mesmo dos caricaturistas cariocas da época.[2]

Assinatura de Otto Wiedemann como Itag. Revista A Mascara, edição 29, 1918, p. 28. Hemeroteca da BNDigital.

De fato, o trabalho de Otto Wiedemann evidencia uma familiaridade com o desenho de imprensa. Sua família, por sinal, possuía, desde meados do século XIX, uma das mais famosas oficinas litográficas de Porto Alegre. Segundo Paulo Heidrich (2017), a oficina adquirida por Emil (ou Emílio) Wiedemann em 1855 também anunciava-se como Litografia Imperial, e teria sido originalmente pertencente a Pomatelli & Cia[3]. Em 1868, Emil Wiedemann associa-se aos irmãos Siqueira, expandindo os negócios da empresa. Neste período, segundo Damasceno (1962), os proprietários do hebdomadário caricato A Sentinella do Sul “[…] declaram que a impressão do novo órgão estaria a cargo da Litografia Imperial, de Emílio Wiedmann, sita Á Rua da Praia, nº 186, onde também funcionariam sua gerência e sua redação”[4]. A associação dura até 1890, quando Emil desliga-se do último desses sócios e estabelece a Lith. Emílio Wiedemann e Filhos[5]. Esse nome indica que Emil associou seu filhos Carlos e Oscar à empresa, e não Luiz[6], conforme consta em Heidrich (2017, p. 27). Ainda conforme Heidrich (2017, p 26), este antepassado do caricaturista Otto teria sido “[…] um dos mais hábeis gravadores do Estado”, o que coloca Itag numa linhagem de tradição artística.

. Anúncio da Typographia Imperial de Emilio Wiedemann no Annuário da Província do Rio Grande do Sul. In: HEIDRICH, 2017, p. 26.
Anúncio da cerveja preta de Carlos Bopp impresso na Typographia Wiedemann. In: HEIDRICH, 2017, p. 27.

Luiz, irmão de Emil, associou-se a Ignacio Weingaertner em 1869, criando a Lithografia Wiedemann & Weingaertner. A respeito de Ignacio, Damasceno (1962) observa que

Conhecido era êle [Inácio Weingärtner], à época, como excelente gravador, um dos mais compenetrados e hábeis da litografia de Emílio Wiedmann, em cujas oficinas ingressara, menino ainda, e onde, sob a orientação de Augusto Lanzac von Schonak, mestre consumado na arte litográfica, logo se destacara […].[7]

Esta relação próxima indica uma prática de formação de novos artistas gravadores enquanto aprendizes na oficina, e que mais tarde se associariam para fundar novos estabelecimentos, como parece ter sido o caso de Luiz e Ignacio. Contudo, o negócio durou apenas dois anos: em 1870, Ignacio desliga-se da oficina e parte para o Rio de Janeiro a estudos, enquanto que, segundo Athos Damasceno[8] (1971), Luiz fecha o estabelecimento em 1871. Veloso (2017) por sua vez, refuta este último dado, afirmando que

Equivoca-se Damasceno, porém, ao considerar Louis como filho e não irmão de Emil. Ignora também o prematuro falecimento de Louis aos 32 anos em 1871, pois julga Damasceno que Louis teria se desinteressado de suas atividades de gravador e professor de desenho, quando o fato é que cessou suas atividades profissionais por falecimento.[9]

De qualquer modo, a então Lithografia Imperial, então Wiedemann, funciona até 1925, provavelmente administrada pelo filho de Heinrich Emil e pai de Otto, Carlos Wiedemann. Neste período, ainda se faz anunciar em publicações importantes como a revista A Máscara.

Anúncio da Litografia Wiedemann na revista A Mascara, 1918, BNDigital, Edição00010, p36.

Dada esta história familiar, é possível pensar que Otto Wiedemann tenha aprendido os rudimentos do desenho em casa. De fato, Paula Ramos (2007) afirma que era “[…] Otto Wiedmann, filho dos proprietários da famosa Litografia Imperial”[10]. Ainda que não se tenha até o momento conseguido levantar informações a respeito de sua formação escolar e acadêmica, é lícito supor que essa proximidade com o ofício tradicional da família tenha favorecido e estimulado a sua atividade artística e ligada à imprensa. Assim, em março de 1918, já é anunciada na própria revista A Mascara, a incumbência da direção artística dada ao jovem artista:

Animados pelo acolhimento, crescente de nossos leitores, e no intuito de tornar-mos a nossa revista cada vez mais attrahente, entregamos definitivamente a direcção artistica de ‘Mascara’ ao nosso companheiro de trabalho Otto Wiedmann, a cujo traço desembaraçado e elegante devemos grande parte do successo que temos alcançado. Itag, que é talvez o mais novo caricaturista rio-grandense, tem-se imposto fartamente aos olhos dos que sabem fazer justiça, pelo vigor originalissimo do seu traço.[11]

Apesar de seu extenso trabalho nas edições dos primeiros anos da revista A Mascara, Otto Wiedemann possivelmente exercesse seu trabalho de caricaturista e diretor artístico da publicação enquanto diletante, uma vez que “artista” não era uma profissão plenamente reconhecida. Assim, acarretava, como hoje, grandes dificuldades financeiras quando se tinha de manter uma família, como era o caso de Otto.

Conforme competia a um homem sério e membro da sociedade – é mencionado no jornal A Federação desde 1908[18], Otto Wiedemann provavelmente tem seu status profissional reconhecido como comerciário, de onde tira o sustento de si e sua família, ao mesmo tempo em que atua numa das primeiras e mais importantes revistas ilustradas de Porto Alegre. Pode-se especular, portanto, que o artista fazia parte de uma certa elite urbana com acesso à arte e à cultura, uma vez que, como nota Ramos (2016), seu estilo de desenho é bastante influenciado pelo do cartazista e ilustrador alemão Ludwig Hohwein.

No campo da ilustração, os já citados Stelius e Francisco Bellanca […] eram presenças assíduas, assim como Itag, pseudônimo de Otto Wiedmann, cuja produção – como já observado por Carlos Scarinci – revela conhecimento de grandes ilustradores europeus da época, a exemplo do cartazista alemão Ludwig Hohlwein (1874-1949).[19]

Luwig Hohlwein. Litografia para a Confection Kehl – Marque PKZ, Winterthur Untertor 2. Acervo do MOMA.
Capa de Otto Wiedemann para a revista A Mascara, 1918, Hemeroteca da BNDigital, Edição00017, p01.

Isso indica um contato com a expressão mais moderna da arte aplicada à imprensa praticada na Europa, mas também no Brasil. Pode-se reconhecer no estilo de Otto Wiedemann uma linearidade forte e cômica, muito apropriada à caricatura e com nítida influência do estilo Art Nouveau em seus motivos decorativos e poses perfiladas. Essas características colocam Otto Wiedemann em sintonia com outros artistas ilustradores da década de 1910, como o carioca J. Carlos (1884-1950) e austríaco Franz Wacik (1883-1938).

Charge de Otto Wiedemann na revista A Mascara, BNDigital, 1918, Ed00026, p25.

Como artista, Otto Wiedemann parecia ser muito apreciado no meio intelectual e na imprensa local. A Mascara[20] dedica-lhe uma matéria em que faz coletânea dos elogios tecidos à sua arte por outros veículos de imprensa, como O Liberal e Ultima Hora. É durante o ano de 1918 que a maior intensidade de sua atividade parece se dar, produzindo desenhos na forma de vinhetas, charges, capas e retratos numerosos para a revista. Em maio deste ano, organiza com os também colegas artistas de imprensa Hip, Souza Gabrielli e Carraro um “Salon de humorismos e caricaturas”[21] da revista A Mascara, no qual declaram que “a qualquer cidadão atacado pelo microbio do ‘lapis’ e por elle corroido a ponto de poder perpetrar uma caricatura ou um desenho humoristico, assiste o direito inilludivel de concorrer ao salon[22]. Isso demonstra uma franca participação não só no circuito de artistas e criadores gráficos da cidade de Porto Alegre no começo do século XX, como também um papel de curadoria, julgando o mérito de outros artistas a serem selecionados, o que o faz um participante ativo na formação da visualidade da época. Segundo a revista, o Salon ocorreria no dia 15 de julho daquele ano[23].

Contudo, o exame das edições de 1919 e ulteriores constata uma rarefação dos trabalhos de Wiedemann n’A Mascara, sendo muitos desenhos anteriores reaproveitados em adaptações para anúncios publicitários. No sentido de dar pistas a essa inconsistência de produção, a nota da revista A Mascara de dezembro de 1918 esclarece que isto se dá em função da lua-de-mel do artista, para a qual parte para o Rio de Janeiro:

Realisou-se, a 31 do mez findo, o enlace do nosso querido companheiro de trabalho Otto Wiedemann, Itag, com mlle. Olga Reichardt, figura de muito relevo no nosso grande mundo. Os noivos que tem sido vivamente felicitados, seguem, amanhã para o Rio de Janeiro em viagem de recreio.[24]

Zelosa da importância do artista para os seus leitores, a revista não tarda em alertar que “felizmente Itag não fará a ‘viagem do corvo’, podendo por consequencia tranquilzar-se os nosso leitores, pois ‘Mascara’ não ficará privada de um dos seus melhores elementos”[25]. Prestigiado, Otto tem o seu aniversário noticiado na imprensa[26], assim como o nascimento de seus dois filho, Carlos Augusto (ou Carlos Emílio)[27]e Ruy.

Finalmente, em março de 1921, a revista A Mascara noticia a volta de Wiedemann ao seu cargo de diretor artístico da revista na seguinte nota:

Voltou a occupar o seu antigo logar de director artistico nesta redação, o nosso presado companheiro de trabalho e um dos fundadores de ‘Mascara’, Otto Wiedemann, que, com o pseudonymo de Itag, conquistou um logar á parte entre os nossos caricaturistas. Afastado por algum tempo da publicidade por interesses particulares, a elegância de seu traço fez sentir a sua falta nas columnas desta revista.

Os nossos leitores, habituados, já, ás suas charges cheias de verve vão ter novamente o alto prazer de as encontrar nas paginas deste semanario.

É com immenso júbilo que damos, aos nossos innumeros leitores essa noticia.[29]

No entanto, nos exemplares dos anos seguintes disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, não foram encontrados outros trabalhos de Wiedemann publicados tanto como caricaturas ou vinhetas inéditas. As últimas notícias a seu respeito verificadas no jornal A Federação dão conta de que “[…] se hão de vender em hasta pública a quem mais der e maior lance offerecer os immoveis abaixo descriptos, penhorados á Otto Wiedmann e sua mulher no executivo hypothecario que lhes move Serafim Bertelli[30]. A notícia sinaliza que, já no início da década de 1920, Otto Wiedemann e a esposa poderiam estar passando por dificuldades financeiras. Como não se encontraram até o momento mais informações a respeito de sua vida pessoal e profissional é possível pensar que as exigências da sua situação financeira o tivesse obrigado a deixar o trabalho como artista de imprensa.

Página de charges de Otto Wiedemann na revista A Mascara, BNDigital, 1918, Ed00038, p. 14.

Este post traz uma pequena amostra do vasto trabalho de Otto Wiedemann nas revistas ilustradas, especialmente A Máscara. É possível ver muito mais das suas ilustrações nas edições desta revista presentes na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional.


Referências

[1] Até onde se pode levantar na pesquisa até o momento.

[2] SCARINCI, Carlos. A gravura contemporânea no Rio Grande do Sul – I : 1900 a 1960. Porto Alegre, RS: Museu de Arte do Rio Grande do Sul, 1980. P. 7.

[3] HEIDRICH, Paulo Ricardo. Impressos comerciais no Rio Grande do Sul: marcas registradas na Junta Comercial de Porto Alegre 1878-1923. Monografia, Departamento de Artes Visuais da UFRGS. Porto Alegre, 2017. P. 27.

[4] FERREIRA, Athos Damasceno. Imprensa Caricata do Rio Grande do Sul no século XIX. Porto Alegre: Editora Globo, 1962. P. 13.

[5] HEIDRICH, Paulo Ricardo. Impressos comerciais no Rio Grande do Sul: marcas registradas na Junta Comercial de Porto Alegre 1878-1923. Monografia, Departamento de Artes Visuais da UFRGS. Porto Alegre, 2017. P. 27.

[6] Emil não possui nenhum filho com o nome de Luiz, mas sim Oscar, conforme VELLOSO, V. W. Famílias de origem alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST Edições, v. volume II, 2017. P. 491.

[7] FERREIRA, Athos Damasceno. Imprensa Caricata do Rio Grande do Sul no século XIX. Porto Alegre: Editora Globo, 1962, p. 16. A grafia original foi mantida.

[8] Apud HEIDRICH, 2017, p. 29.

[9] VELLOSO, V. W. Famílias de origem alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST Edições, v. volume II, 2017. P. 490.

[10] RAMOS, Paula Viviane. Artistas ilustradores – A Editora Globo e a Constituição de uma Visualidade Moderna pela Ilustração. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, 2007. P. 12.

[11] A Mascara, 1918, Ed00006, p. 18, 16.03.1918 Anno I Número VI. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[12] Foram pesquisadas as seguintes variações de grafia do sobrenome: Wiedemann, Wiedmann, e Widemann.

[13] A Federação, 18.04.1918, p. 3. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[14] A Federação, 29.12.1919, p. 7. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[15] Segundo Veloso (2017, p. 492), em 29.12.1915, em Porto Alegre. Amalia era filha de José Antonio Ribeiro de Mello e Constância.

[16] Segundo A Federação, Ed00272, 24.11.1916, p. 3. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[17] Em  27.02.1919, segundo VELLOSO, V. W. Famílias de origem alemã no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EST Edições, v. volume II, 2017. P. 491.

[18] Edição de 02.01.1908, disponível no acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[19] RAMOS, Paula. A modernidade impressa: artistas ilustradores da Livraria do Globo – Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS Editora, 2016. P. 134.

[20] A Mascara, 1918, Ed00011, 04.05.1918. Anno I, Número XIII, Pp. 13-15. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[22] A Mascara, 1918, Ed00016, p. 12, 25.05.1918, Anno I, Número XVI. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[23] A Mascara, 1918, Ed00017, p. 13, 01.06.1918, Anno I, Número XVII. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[24] A Mascara, 1918, Ed00047, p. 14, 04.12.1918, Anno I, Número XLVII. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[25] A Mascara, 1918, Ed00045, p. 13, 12.12.1918, Anno I, Número XLIV. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[26] Observado em diversas edições do jornal A Federação e da revista A Mascara. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[27] Segundo A Mascara, 1919, Ed00043, p. 23, 06.12.1919, Anno II, Número XLIII. Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[28] A Federação, 03.09.1917, 07.09.1918, 21.05.1918, 08.01.1921, entre outras edições. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

[29] A Mascara, 1921, Ed00046, p. 121, 30.03.1921, Anno III, Número XLVI. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

[30] A Federação, BNDigital, Ano1922, Ed00196-1, 23.08.1922, p8. Acervo da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. A grafia original foi mantida.

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